começo

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Eu não lembro exatamente como eu e a Nathalie decidimos que era a hora de começar a realizar o sonho de ter filhos. Já tinhamos conversado bastante a respeito, era algo que as duas queriam. Mas quando tento lembrar da conversa onde decidimos “é agora”, a memória falha. O que lembro é que recebi a indicação da clínica onde faríamos o tratamento no começo de agosto de 2014.

Liguei e marquei a primeira consulta não muito depois disso. Em setembro já tinhamos o caminho das pedras para iniciar todo o processo. Inseminação artificial com esperma de doador. Na visita ao banco de sêmen percebemos como a cultura de doação no Brasil é fraca… muito provavelmente por que é ilegal no país a doação remunerada (que oximoro, não?) – a venda de esperma não é ilegal, tanto que o banco de sêmen comercializa o “produto”. A única motivação que um cara tem para doar, além da ~boa ação~, é poder fazer vários exames como parte do pacote. Digamos que a gama de opções não é nada extensa. Se resume a duas folhas, com uma planilha de excel com quase nada de informações sobre o doador. Cor dos olhos, cor do cabelo, peso, altura, tipo sanguíneo, religião, formação e profissão. No próprio banco nos foi dada a opção de utilizar o esperma de um banco americano parceiro. Nos Estados Unidos a doação de esperma é remunerada, portanto há infinitas opções e muito mais informações sobre os doadores. É um verdadeiro catalogo. Além das informações que teríamos no caso dos brasileiros, encontraríamos também testes de personalidade, histórico de doenças na família, uma redação com a motivação para se tornar doador (além da financeira), uma gravação com a voz do cara, lista de hobbies e interesses e uma foto sua quando criança. Ter todas essas informações te da uma falsa sensação de “controle” sobre essa escolha. Nós optamos por usar o sêmen do banco americano. Muita gente nos pergunta como foi o processo de escolha – basicamente pensamos “nós seríamos amiga dessa pessoa?”. Outro ponto importante era ser parecido com a Nathalie, já que definimos que usaríamos o meu óvulo e minha barriga.

Depois de eu fazer vários exames para confirmar a minha fertilidade (seria um desperdício de tempo e dinheiro começar um processo de reprodução assistida e depois descobrir que eu teria algo que me impedisse engravidar), iniciamos a jornada. Faríamos três tentativas de inseminação artificial e, se não tivéssemos sucesso, partiríamos para a fertilização in vitro. Para aumentar a chance de cada tentativa, eu tomaria hormônios para estimular a ovulação. Injeções de Gonal diárias (aprender a aplicar injeções em mim mesma foi um capitulo à parte), inúmeras idas à clínica para acompanhar o crescimento mensal dos óvulos até que o médico dissesse “amanhã é o dia”. Quando ele dava o go ahead, a gente buscava o esperma no banco, com uma garrafa térmica comprada no pão de açucar. Devia ser uma cena engraçada para os manobristas, verem uma pessoa carregando uma garrafa térmica meio aberta, com fumaça de gelo seco saindo, com o maior cuidado do mundo. Em cada tentativa, as expectativas eram enormes. Teoricamente, 14 dias depois da inseminação (que nada mais é do que injetar o esperma no canal vaginal e torcer para que tenha um óvulo lá pronto e esperando para ser fecundado) é possível fazer um teste de farmácia para ver se rolou ou não. 14 dias de eternidade. 14 dias lendo absolutamente todos os sinais do corpo, tentando notar uma diferença que te diga “agora foi”. Eu entrava nos fóruns da internet de pessoas fazendo o mesmo processo (mulheres tentando engravidar ficam meio malucas), me familiarizei com todos os termos, e entrei na piração junto. Nunca postava nada, mas acompanhava a jornada de várias.

Nas primeiras duas tentativas fiquei menstruada antes mesmo do prazo de 14 dias. Que decepção. Na terceira tentativa mudamos de doador. Seria a última tentativa antes de partirmos para o processo mais custoso e trabalhoso de fertilização in vitro. Já estava expert em testes de gravidez de farmácia – logicamente eu não esperava os 14 dias para começar a testar. Oito dias depois da inseminação começava a testar, e logicamente os resultados vinham negativos. Chorei, e disse que  não tinha sido daquela vez, e que teríamos mais um mês pela frente. A Nathalie tentava argumentar comigo que estava sendo louca, que o teste de gravidez não era mágico para conseguir detectar as coisas tão cedo. Ela dizia que eu estava viciada em fazer xixi no palito (no caso, ela estava certa) Eu não dava ouvidos. No dia 24 de dezembro, 12 dias depois da última inseminação, acordei e pensei “vou testar mais uma vez”. E não deu outra. Naquele palito glorioso, a confirmação. Não vou me alongar muito sobre o que aconteceu depois, a não ser que fui à farmácia e comprei mais uns 10 testes, de todas marcas, para ter ~certeza~ do resultado.

Depois disso foram idas ao médico, exame de sangue, o primeiro ultrassom que mostrava uma bolinha que confirmava a fecundação. Estava eufórica. Na segunda ida ao médico, fazendo o ultrassom fiquei mega emocionada ao ouvir os batimentos cardíacos daquele feijãozinho. O médico apontou para a tela e nos perguntou “vocês tão vendo?” – eu não tava vendo nada. A Nathalie foi rápida ao dizer “são dois”. DOIS. Antonio e Daniel estavam a caminho.

Não vou escrever muito sobre a gravidez porque essa não é a intenção desse espaço, acho que nem é muito o que interessa. Só digo que absolutamente amei estar grávida. Tivemos sustos ao longo do caminho, mas nada tirava aquela sensação incrível. Lá pela vigésima sexta semana de gestação (é um porre esse negócio de contar gravidez pelas semanas, mas como os médico fazem assim, você meio que entra na onda), fazendo um ultrassom de rotina, o médico percebeu que a barriguinha do Tom estava um pouco dilatada. Foi aí que vimos que ele estava com uma obstrução no intestino, e que só saberíamos ao certo o que era quando ele nascesse. Pânico.

E foi assim que, no dia 10 de Julho de 2015, 7 meses depois (32 semanas), Tom e Dani fizeram sua estreia no mundo. Uma sexta feira, ponte de feriado (médico tendo que voltar da praia para fazer o parto e etc.), um dia de inverno lindo e ensolarado. Sendo super piegas – o dia mais emocionante da minha vida.

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