viva o tom 


Antonio chegou numa noite de sexta, emenda de feriado. Talvez já soubesse da predileção de suas mães por dias assim. Gostavam de sair, e tiveram seus dias áureos de festas e baladas. Veio apressado, trazendo consigo uma companhia. Daniel. Antecipou sua chegada ao mundo por dois meses. Parece ter feito um trato com seu irmão: “a minha missão aqui nessa terra precisa começar agora. Você precisa vir comigo – faça esse sacrifício por mim, e prometo que não serás afetado pelas sequelas da prematuridade”, disse ele ao bebê com cabelos loiros platinados, com um ar de sabedoria que não condizia com sua situação de nem nascido.

Antonio viveu todas as estações do ano. Achou que um ciclo era o suficiente para ele. Talvez o nosso conceito de tempo seja diferente do dele. 

Antonio aproximou pessoas. Conhecidas e desconhecidas. Uma família. Amigos. Mostrou que o mundo é um lugar cheio de incertezas, mas também de amor. Um amor que transcende. Foi a inspiração de sua tia para criar o Instituto Pequenos Grandes Guerreiros, que tem uma longa missão pela frente. Veio a mostrar que nada é problema se você tem saúde. Nada mesmo. Foi acometido por uma das raras doenças que o deixou dependente de fios em tempo integral. Mas nunca isso foi problema para ele – talvez para os outros, mas para ele, o mau humor só vinha quando a dor aparecia. 

Antonio era um aficcionado por literatura. Quando a contadora de histórias chegava, uma senhora em particular, que toda semana ia ao seu quarto, ele ficava olhando fixamente para sua mala de histórias. Pronto para ser transportado para outros lugares, para ver outras cores, ouvir novas aventuras. Mas se o livro não o agradava, ele não fazia cerimônia em expressar seu descontentamento. Gostava de um em particular: uma história sobre uma galinha em um galinheiro. O final da história, que ele sempre aguardava com uma antecipação ímpar, era uma página pop up com mil pintinhos que faziam barulho, como se estivessem piando de verdade. Ele se chacoalhava todo e sorria quando chegava essa parte. Poucos bebês de meses tem uma reação assim com livros. Um foco tão grande. Parecia que Antonio se disfarçava de bebê. Nós não nos despedimos dessa contadora de histórias. Espero que ela saiba o quanto aqueles minutos semanais eram aguardados.

Gostava de assistir desenhos, e ouvir musicas. Colocava o desenho do Bita para ele assistir, mas ele nunca se interessava muito. Eu insistia, Pq as musiquinhas eram agradáveis, o Dani gostava muito. Antonio não queria saber do Bita. Ele gostava era de Galinha Pintadinha. Sempre questionei como um cara com gosto tão refinado gostava daquela galinha tão chata. Mas agora entendo o que ele fez: se ele tivesse gostado de Bita, saberia que toda vez que tocasse para o Daniel, eu ficaria melancólica. Pelo menos nesse começo. A galinha é só dele. Não preciso tocar pro Dani. A galinha fez parte da nossa vida, com ela a gente conseguia fazer trocas de curativos, ou outros procedimentos chatos. Antonio se distraia com as canções antigas. Talvez ele já conhecesse elas de outras épocas. Eu amo essa galinha, pois ela deixava o meu filho contente. 

Eu comecei esse blog para narrar uma jornada. Não imaginava esse desfecho. Para mim, Tom era imortal. Indestrutível. Tinha passado por tantas coisas, parecia que realmente seguiria em frente e venceria tudo que aparecesse pela frente. As últimas semanas foram muito difíceis. As mais difíceis da minha vida. E chego a pensar que se tiver de enfrentar algo mais difícil que isso, questiono a minha capacidade de suportar. Antonio lutou bravamente. Não titubeou. Mas nesse final, seu corpo estava cansando. Estava com marcas de batalhas ainda mais agressivas que antes. Me questionei muitas vezes o porque de tudo. Porque ele estar passando por tudo aquilo. Sim, ele estava sedado. Mas ele chorava. Entubado, desacordado, lágrimas rolavam pelo seu rosto. Isso dilacerava meu coração. Foi ficando resistente aos remédios. Devia estar com o corpo dolorido. 

É impossível não questionar a fé. Muitas pessoas me diziam para confiar em Deus. Eu confiava no Tom. Difícil entender um Deus que permite que uma criança passe por provações tão extremas. Sim, minha relação com Deus está estremecida. Impossível passar por isso e sair ileso. Acredito que Antonio tinha uma nobre missão nesse mundo, e que 10 meses foram o suficiente para ele cumprir o que lhe foi designado. Mas quando fecho os olhos e lembro das feridas no seu corpo, eu penso que não é justo. O padre que batizou Antonio, e também rezou a missa em sua homenagem disse que sentir raiva era normal. Que bom. 

Sempre tive o hábito de escrever durante situações difíceis. Nunca havia publicado essas coisas tão íntimas antes. Quando Antonio teve a Enterocolite, eu escrevi, só para mim, a seguinte passagem:

“Eu ando pelo corredor sem conseguir mexer os braços. Meu corpo pesa, minha cabeça lateja. Não, não é um latejar, é uma dor aguda. Parece que a vida foi sugada de mim. O rosto dele aparece para mim com cada piscar de olhos, até que vira uma presença permanente. Sinto o seu cheiro e lembro da sua pele. Como é macia. Lembro de como gosto de correr meus dedos em seu braço. Ele é todo pequeno – menos os seus olhos. Olhos negros, grandes, fundos… Olhos de quem já viveu uma eternidade. Sábios. Gosto de me perder nesse olhar. Sou capaz de reconhecer seu choro no meio de tantos outros. Você não chora fácil. Chora com propósito. Chora de dor. Sabe a hora de chorar. Ontem você chorou quando eu estava indo embora. Eu não fui. Fiquei com você, te peguei no colo e achava que estava te oferecendo um aconchego. A verdade é que sempre foi você que me confortou. Você parou de chorar e abriu seus olhos negros. Respirei com você.”

Escrevi isso no dia 5 de Agosto de 2015. Antonio tinha 27 dias de vida, mas acho que a gente já tinha se entendido perfeitamente. Ele nos escolheu. Eu, creio, o compreendi. 

Antonio partiu num sábado à noite. Também sabendo a predileção de suas mães pela data. Passou o dia com sua mãe Ná. Me esperou chegar no hospital. E ao contrário de todos os outros momentos de susto no hospital, não houve corre corre, carrinho de emergência, reanimações, confusão. Ele partiu no meu colo. Não sem antes abrir seus olhos negros, para se despedir. Eu agradeci ele por ter escolhido a gente. Agradeci a garra dele. Agradeci as lições, que dificilmente terei iguais enquanto estiver viva. Mas chorei. Chorei muito. De saudades. De tudo que não foi. De ter que ver meu filho ir. De raiva por termos que passar por isso. 

Naquele sábado, eu tirei uma soneca à tarde com Daniel de 3 horas. Parece que ele sabia que eu tinha que dormir para me preparar. Ele também sorriu ao ser acordado para ser levado para casa dos avós quando a Nathalie teve de voltar ao hospital. Daniel sabe dos segredos de Antonio. Ele é seu comparsa, que veio junto para essa missão, mas com um papel diferente. Daniel é o nosso sol nesse momento tão escuro. 

Até hoje eu custo a acreditar que tudo isso aconteceu mesmo. É tudo muito surreal. Tenho vontade de ir para o hospital procurar por ele. Não consigo dormir. A ferida ainda está escancarada. Eu não faço ideia se ela vai fechar ou não. Sei que a gente vai continuar vivendo por ele – as lições que ele deixou não foram poucas, e meu papel será fazer com que sua memória seja eterna. Viva o Tom.