choque


Não sei por onde começar. Quando você convive com uma doença crônica, quando as coisas saem do script, o pânico começa a aparecer.

As coisas estavam estranhas. Comentei da infecção, da febre… Na sexta feira, 29 de abril, Tom teve dor e muita febre. Como nunca antes. Ele ardia, e nada fazia baixar. Estava visivelmente incomodado – pedia analgésicos, pois minha missão é deixá-lo sempre o mais confortável possível. Tirei sua roupa, bombei o ar condicionado do quarto, fiz compressas pelo seu corpo – e nada da temperatura baixar. Seu padrão respiratório ficou estranho, ele estava cansado, e seu coração batia rápido. Colheram exames e chamaram a médica. A infecção ainda está lá, assombrando todos nós e fazendo nosso pequeno sofrer. Mesmo com antibióticos, os malditos bichinhos faziam estrago pelo seu corpo. 

Para a dor, morfina. A morfina tem um efeito muito incomodo, que é o de dar coceira. Antigamente, Antonio parecia não ser afetado por isso. Mas das últimas vezes que tomou morfina, ficou com uma coceira agonizante depois. Dessa vez não foi diferente. Levava as mãos ao nariz e começava a esfregar – chorava, não de dor, mas de irritação. No sábado, um susto: Tom parou de respirar. Essa coceira que o incomodava foi causando uma agitação tão grande que ele simplesmente parou de respirar. Ele tinha feito isso outras vezes, mas nunca nos acostumamos. A médica disse que teríamos que ir para a UTI, dessa forma ele ficaria melhor monitorado e caso necessitasse de algum apoio a mais, a estrutura seria mais adequada.

Achávamos que seria como das outras vezes: ele seria transferido para UTI, chegaria lá com cara de paisagem, ficaria pouco tempo. 

No sábado à tarde, no horário da visita na UTI, resolveu aprontar: de novo ficou com aquela irritação, e parou de respirar. A Nathalie estava com ele, e como era horário de visita, minha mãe pela primeira vez presenciou o ocorrido. A ida para UTI definitivamente não tinha sido em vão. Quando meu telefone tocou, sabia que algo tinha acontecido. Estava na rua com Dani – deixei ele na casa da minha mãe, e fui pro hospital. Encontrei um Tom medicado, gemendo, com febre e super taquicárdico. Chorei muito.

Depois do susto que deu, a equipe da UTI tinha decidido que iam mudar Antonio pra um lugar mais próximo do posto de enfermagem. Eu passaria aquela noite com ele. Ele estava precisando de um pouco de oxigênio, analgésicos fortes e antitérmicos. Durante a noite chorou algumas vezes, e eu pegava ele para tentar conforta-lo, mas nada parecia acalma-lo. Depois de uma noite conturbada, o dia foi seguindo mais ou menos igual. Ele não estava fazendo xixi. O desconforto respiratório foi aumentando. Ele precisou ser colocado numa máscara de oxigênio full face. Parecia um piloto de caça. Ou um scuba diver. Essa mascara colocava mais pressão pra dentro dos pulmões. Logicamente odiou a máscara e ficou super nervoso, tentava arrancar Teve de ser sedado para acalmar. 

Como de praxe, fiquei sentada olhando aquele monitor de UTI – o monitor que mostra os batimentos cardíacos e saturação. O monitor que apita se os números caem. As campainhas que me causam pânico. Naquela tarde Tom recebeu visitas (essa UTI tem horário tem visitas, somente uma hora por dia). Sua tia Isabela, e seu Dindo Flavio. Os dois ficaram abalados ao vê-lo daquele jeito. É engraçado como eu me abalo vendo os outros se abalarem. Consigo se forte por mim (às vezes), mas parece que ver os outros triste transforma tudo numa realidade muito mais presente. Difícil explicar. 

Mesmo com a máscara, Tom estava saturando mal. Os números iam caindo, e os alarmes ressoavam. Aquilo foi me gerando angústia. Aumentaram os parâmetros da máquina para mandar mais oxigênio, e colheram exames: uma gasometria, um exame que avalia o funcionamento dos pulmões medindo os níveis de oxigênio e gás carbônico no sangue. Pouco tempo depois da coleta voltaram. Teriam de repetir o exame. O primeiro voltara muito alterado, estavam duvidando do resultado. Recoleta (uma palavra que comecei a temer) feita, e resultados confirmados. Gasometria péssima. Os pulmões de Antonio não estavam funcionando bem. A médica me confirmou o que eu já esperava: teriam de entubar.

Por mais que a entubação não é nada agradável, para nós não é algo tão estranho. Já passamos por isso com Tom algumas vezes, e embora não fique mais fácil, não é desconhecido. Liguei para a Nathalie e avisei a notícia. Disse que ela não precisava vir para o hospital, e que avisaria assim que terminassem o procedimento. Todas as outras vezes que Antonio foi entubado o processo todo não durou mais que meia hora, no máximo. Então foi esperando isso que sai do quarto dele, não sem antes dar um beijo em suas bochechas inchadas, e dizer que eu estaria lá esperando por ele.

Sentei e esperei. E esperei. E esperei. Minutos passavam, depois uma hora… E ninguém saia daquele quarto. Pelo contrário, pessoas só entravam. A médica do Tom que foi ao hospital acompanhar tudo de perto também estava lá dentro. Comecei a andar de um lado para o outro muito impaciente. As enfermeiras saiam e entravam afoitas com materiais nas mãos. Uma das médicas plantonistas saiu e percebi que evitou contato visual comigo. As minhas pernas começaram a ficar bamba. E de repente escuto alguém, uma voz lá de dentro dizendo “pode deixar, já estou ligando para o anestesista”. Pronto. Foi um golpe no estômago. Peguei meu celular, liguei para a Nathalie. E tentando manter a calma para não deixá-la em pânico, mas logicamente com a voz absolutamente petrificada disse a ela “eu não sei o que está acontecendo, mas tem alguma coisa errada. Vem pra cá.” Depois disso eu desabei. Quase dez meses de hospital me deixaram calejada. Me considero uma pessoa forte, consigo aguentar muita coisa. Mas nessa tarde de domingo, estava tudo desabando ao meu redor. Em algum momento eu consegui ligar pra minha mãe e pedi para ela ir ao hospital. Estava com medo de estar lá sozinha. As pessoas vinham falar comigo, me mandavam sentar, beber água… Eu só queria saber do meu filho: o que estava acontecendo atrás daquelas portas? Porque aqueles alarmes estavam tocando? 

Em um tempo sobre-humano a Ná chegou. Quando ela entrou pela porta da UTI, agarrei ela e chorei. Choramos. Pela incerteza, pelo desespero. Não sei em que momento nos colocaram na sala das enfermeiras. Eu queria gritar. E no que pareceu ser uma vida depois a médica entrou. Eu olhei para a cara dela fixamente e ela disse: conseguimos. Ele foi entubado. Sentei, anestesiada. “Ele ficou muito inchado, muito rápido. Quatro médicos diferentes tentaram entuba-lo e não conseguiram. Chamei o anestesista, que após duas tentativas conseguiu. Foi muito difícil mantê-lo ventilado durante esse processo. Seu rosto ficou machucado.”. Eu achava que estava tudo resolvido. Pronto, entubou! Agora era só esperar ele melhorar. Em 10 meses tinha muita coisa que ainda não sabia…

Perguntei se poderíamos vê-lo, ela disse que ainda não. Falou para darmos uma volta, parecia que ela nos dava tarefas pra tentar nos ocupar. Eu andava pra cima e pra baixo arrastada, como se estivesse bêbada, fora de mim. Minha família toda estava lá. Uma hora voltamos pra dentro da UTI e me disseram que não tinha conseguido ventilá-lo no respirador comum, precisaram colocá-lo num ventilador de alta frequência. Esse ventilador é uma máquina medonha, parece algo que veio do programa espacial da antiga união soviética. Ele faz a pessoa tremer, e é de um barulho sem tamanho. Entrei pra ver meu bebê, e lá estava ele, todo tremendo, com o rosto machucadinho, marcas de sangue na boca. As marcas de mais uma batalha. Além disso, mais uma notícia: o cirurgião vascular estava a caminho, e colocaria um cateter em Antonio: ele teria de fazer hemodiálise. Um raio X tinha mostrado seu pulmão completamente encharcado. Ele entrou em choque séptico. Seus rins e pulmões pararam de funcionar. Tudo isso em questão de horas. Estava precisando de andrenalina e noradrenalina para que sua pressão arterial permitisse que seu coração continuasse bombeando sangue. Além da frequência cardíaca e saturação agora eu tinha um novo número para acompanhar no monitor da UTI: pressão arterial. 

Eu só lembro de flashes dessa noite. Lembro que em um momento ele tinha 12 medicações correndo simultaneamente. Lembro do barulho do respirador de alta frequência misturado ao barulho da máquina hemodiálise. Lembro da muita gente entrando e saindo do quarto. Da frequência cardíaca de Tom que naquela noite chegou a 220bpm. Da sua temperatura que oscilou de 35 para 39. Da médica mais dedicada (sua médica titular, não uma plantonista) que ficou lá com ele – e com a gente até às três da manhã. As horas se misturaram na minha cabeça, até que virou dia. E 6 da manhã a médica estava lá de volta para uma nova sessão de hemodiálise. E então ela nos disse: “ele sobreviveu a essa noite. Agora vamos em frente que nossa luta só começou. A parte dele, ele fez.”

13 pensamentos sobre “choque

  1. Coração valente! Continuamos pedindo que seu anjo da guarda continue firme, protegendo-o mais e mais. Vocês duas sao guerreiras!!

  2. Eu não te conheço. Mas tenho acompanhado e orado. Você descreve com tanta delicadeza e emoção que sempre me causa lagrimas. E empatia. Eu não sei o que dizer. Mas saibam que alguém que nem conhece vocês duas e nem o Tom, está torcendo e orando demais pelo conforto dele. É tudo o que a gente que é mãe quer: Ver os filhos saudáveis e confortáveis. Desejo muita paz e tranquilidade para vocês. Muita saúde para ele !

  3. Queridos – permitam-me chamá-los assim, pois já os considero amigos muito chegados – Deus abençoe esta mãe que acha forças não sei aonde prá passar para o papel esses sentimentos tão intensos ! Deus está com vcs, sempre, sem dúvida. O impacto desses altos e baixos do Tom abala a mim, que estou a certa distância…. imagino a devastação que causa em vcs…. Muita força e fé, queridos. Vcs estão sempre em minhas orações, estejam certos disso. Carinho.

  4. Acabo de conhecer seu blog e me emocionei com sua força, com seu amor incondicional e com a força do Tom. Deus está com vocês. A luta é árdua, mas acredito que há explicação e razão para tudo e um dia entenderemos. Seu filho e sua família estão agora em meu coração e minhas orações.

  5. A cada relato seu Bia eu tenho sempre vontade de pegar você no colo para te aconchegar , você que é amiga da minha filha te vejo como se fosse minha filha e como se o Tom meu neto . Imagino a dor de ver-lo passando por tudo o que vem passando e imagino , só imagino o tamanho da agonia que deve ser para a família . O que posso te dar é o meu carinho e orações , fui no hospital e o conheci e a paixão aumentou ! Fui doar sangue e acabei mais encantada por ele e pelo seu amor por ele ! Coragem menina você é a Nat estarão logo logo brincando com ele e o Dani ! Força e FÉ !!!

  6. Queridas guerreiras e inspiradoras.
    O amor de vocês é comovente e sei que o universo, vai sempre conspirar a favor.
    Continuem tendo fé!
    Estão sempre em minhas orações.

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