xadrez


Não sabia se conseguiria escrever de novo. Muita gente me manda mensagens por WhatsApp, por Facebook ou até me telefonam buscando notícias do Tom. Parece que eu larguei uma bomba e depois não voltei mais para dar notícias. É difícil escrever. Mais difícil ainda falar. Eu nem sempre consigo responder as mensagens pq às vezes simplesmente não tenho forças. Às vezes me canso de escrever a mesma coisa. Às vezes fico com raiva da situação. Ora fico triste. Frustrada. Mas entendo as indagações sobre o estado de saúde do Tom como uma forma de carinho, e por isso sou muito grata a vocês. Não entendam o meu silêncio como descaso.

Quando eu era criança queria ser arqueóloga. Nunca quis ser médica. Quando fui para a faculdade de psicologia, as matérias que menos me agradavam eram as mais “biológicas”: achava disciplinas como anatomia e genética chatas. Nunca cogitei ir para a área hospitalar. Depois que comecei a trabalhar em empresa, e fiz minha pós graduação em administração, cheguei até a pensar que tinha feito a escolha errada de curso de graduação. Só sei que não foi errada porque foram 5 anos incríveis da minha vida. Tudo isso para dizer que 10 meses dentro de um hospital estão sendo mais intenso do que qualquer curso de graduação. E já disse aqui uma vez, e falo de novo: não queria aprender nada disso.

Hoje completamos 17 dias pós choque séptico. Tom continua entubado e sedado. Dizer que esses dias têm sido uma montanha russa é o maior understatement da história. Isso não é um brinquedo de parque de diversão. É um pesadelo. Dez meses de hospital não poderiam me preparar para viver esses dias. Sinceramente, não sei nem se estou “vivendo” esses dias – parece mais que estou me arrastando e vivendo numa névoa. Antonio é um gladiador. Um homem de ferro. Um touro. Ele já surpreendeu. Naquele fatídico domingo ele passou por uma infecção generalizada. Sepse. Associado a uma “SIRS” ou “Síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SRIS ou SIRS, do inglês Systemic Inflammatory Response Syndrome) é o termo que se utiliza atualmente para descrever uma reação inflamatória sistêmica, ou seja, que afeta o organismo como um todo, e se desenvolve frente a diferentes tipos de agentes agressores.” Teve também um das mais temidas complicações: a insuficiência múltipla de órgãos. 

Como disse a médica, um trator passou por cima de Antonio, e agora estávamos lidando com os danos desse acidente. Teríamos que ter muita paciência no processo de recuperação. Eu sempre fui uma pessoa muito ansiosa, paciência nunca foi uma virtude. Mas nesses 10 meses as coisas passaram a ter um novo significado para mim. Eu tenho toda paciência do mundo. Eu beirava a neurose antes. Incrível como as circunstâncias moldam as pessoas. 

Os dias foram passando, a ele foi melhorando, ou ao menos ficando estável. Às vezes tinha febre, mas as coisas seguiam relativamente dentro do script. Muita paciência. Muito devagar iam diminuindo os parâmetros do respirador, ou seja, iam fazendo com que a máquina respirasse menos por ele, para que eventualmente ele pudesse ser extubado e respirasse por ele próprio. Iam reduzindo as drogas para a pressão. Uns dias eram melhores que outros, e assim fomos aprendendo a lidar com esse novo cenário.

A Nathalie teve de voltar ao trabalho. Não sabíamos quanto tempo ia durar tudo isso. Já disse uma vez, e repito: como eu admiro a capacidade e o foco dela. Nunca vi comprometimento assim. 

A nova rotina é puxada. Os rins de Antonio ainda não voltaram a funcionar. Não sabemos se voltarão. Ele faz hemodiálise todo dia às 7 da manhã. Às vezes duas vezes por dia. Faz muitos exames. Eu sinto falta dele. Sinto saudades do seu sorriso, da sua risada. Fico do lado dele o dia inteiro, mas com um vazio enorme no peito. Fico olhando sua naninha preferida com sua chupeta – e lembro dele chupando a chupeta como se ela fosse um néctar dos deuses. Eu sei que ele está do meu lado, e eu fico cheirando sua cabeça, passando a mão nos seus bracinhos cheio de hematomas… Ele tá aqui, mas tá longe. 

Fico a maior parte do dia com ele, mas tento sempre pelo menos dar jantar e colocar Dani para dormir. Daniel tem sido o meu oásis. Agradeço todos os dias por ele não ter compreensão do que está acontecendo. Tenho certeza que ele sente, ele não é bobo… Mas ele sente do jeito dele. No sábado antes do Tom ir pra UTI, encasquetei que queria passar com Dani no hospital. Mesmo as coisas estando meio caóticas, Tom estando com dor… Quando Dani viu Tom, ele estendeu o bracinho, e passou a mão em seu rosto. De um jeito delicado. Foi com o seu dedo indicador e fez carinho na bochecha de Tom. Fico feliz que os dois tiveram esse momento antes desse turbilhão. Fico feliz de ter o Dani para me dar uma dose extra de ânimo com seus sorrisos e gargalhadas. 

Bom, e como é a situação do Tom hoje? Eu não vou ficar descrevendo acontecimentos aqui – Mas ontem ele teve uma piora. Seus rins, fígado, e pulmões ainda estão comprometidos. O intestino já estava antes. Estamos num jogo de xadrez, como disse a médica. Um jogo lento, de estratégia. Não podemos ter pressa. A situação é grave – mas o que sempre digo e continuarei dizendo: enquanto ele estiver lutando, eu estarei aqui do lado dele, lutando junto. Os parâmetros do respirador voltaram a serem aumentados, e ele voltou a precisar de drogas para a pressão. Um desvio de percurso. Eu não tenho respostas. Não sei se os órgãos voltarão a funcionar, não sei em quanto tempo. Não sei. O meu papel hoje é manter o conforto dele. Então se sinto que ele está acordando, peço para aumentarem a sedação. Mudo ele de posição na cama. Encho ele de creme hidratante. Ajudo a dar banho (de gato). Sempre falam que o Tomtom é cheiroso.

Tom tem recebido muito sangue. Todos os dia recebe sangue. Às vezes mais que uma vez por dia. Recebe também plaquetas. Fiquei novamente muito tocada com o carinho no compartilhamento do pedido de doação de sangue. E ainda mais emocionada com as pessoas, algumas que sequer nos conhecem, que vieram doar sangue e plaquetas. Pessoas que se importam com Tom sem conhecê-lo. Essa rede que faz com que eu acredite que as pessoas são boas. Que no meio de tanto ódio e discórdia, se mobilizam pela causa de um menininho de 10 meses que está lutando a mais brava das batalhas. Eu olho essas bolsas de sangue que meu filho recebe e fico mandando as melhores das energias para as pessoas que doaram. Fico pensando nos super poderes de cura de cada um entrando no corpinho dele… O hospital nos disse que os estoques estão baixos, então meu apelo continua: doar sangue é doar vida! 

Continuem na torcida, colocando o nome dele nos centros, nas igrejas, terreiros, templos, oceanos; pedindo para todos os santos, anjos da guarda, orixás… Vibrem pelo Antonio. 

choque


Não sei por onde começar. Quando você convive com uma doença crônica, quando as coisas saem do script, o pânico começa a aparecer.

As coisas estavam estranhas. Comentei da infecção, da febre… Na sexta feira, 29 de abril, Tom teve dor e muita febre. Como nunca antes. Ele ardia, e nada fazia baixar. Estava visivelmente incomodado – pedia analgésicos, pois minha missão é deixá-lo sempre o mais confortável possível. Tirei sua roupa, bombei o ar condicionado do quarto, fiz compressas pelo seu corpo – e nada da temperatura baixar. Seu padrão respiratório ficou estranho, ele estava cansado, e seu coração batia rápido. Colheram exames e chamaram a médica. A infecção ainda está lá, assombrando todos nós e fazendo nosso pequeno sofrer. Mesmo com antibióticos, os malditos bichinhos faziam estrago pelo seu corpo. 

Para a dor, morfina. A morfina tem um efeito muito incomodo, que é o de dar coceira. Antigamente, Antonio parecia não ser afetado por isso. Mas das últimas vezes que tomou morfina, ficou com uma coceira agonizante depois. Dessa vez não foi diferente. Levava as mãos ao nariz e começava a esfregar – chorava, não de dor, mas de irritação. No sábado, um susto: Tom parou de respirar. Essa coceira que o incomodava foi causando uma agitação tão grande que ele simplesmente parou de respirar. Ele tinha feito isso outras vezes, mas nunca nos acostumamos. A médica disse que teríamos que ir para a UTI, dessa forma ele ficaria melhor monitorado e caso necessitasse de algum apoio a mais, a estrutura seria mais adequada.

Achávamos que seria como das outras vezes: ele seria transferido para UTI, chegaria lá com cara de paisagem, ficaria pouco tempo. 

No sábado à tarde, no horário da visita na UTI, resolveu aprontar: de novo ficou com aquela irritação, e parou de respirar. A Nathalie estava com ele, e como era horário de visita, minha mãe pela primeira vez presenciou o ocorrido. A ida para UTI definitivamente não tinha sido em vão. Quando meu telefone tocou, sabia que algo tinha acontecido. Estava na rua com Dani – deixei ele na casa da minha mãe, e fui pro hospital. Encontrei um Tom medicado, gemendo, com febre e super taquicárdico. Chorei muito.

Depois do susto que deu, a equipe da UTI tinha decidido que iam mudar Antonio pra um lugar mais próximo do posto de enfermagem. Eu passaria aquela noite com ele. Ele estava precisando de um pouco de oxigênio, analgésicos fortes e antitérmicos. Durante a noite chorou algumas vezes, e eu pegava ele para tentar conforta-lo, mas nada parecia acalma-lo. Depois de uma noite conturbada, o dia foi seguindo mais ou menos igual. Ele não estava fazendo xixi. O desconforto respiratório foi aumentando. Ele precisou ser colocado numa máscara de oxigênio full face. Parecia um piloto de caça. Ou um scuba diver. Essa mascara colocava mais pressão pra dentro dos pulmões. Logicamente odiou a máscara e ficou super nervoso, tentava arrancar Teve de ser sedado para acalmar. 

Como de praxe, fiquei sentada olhando aquele monitor de UTI – o monitor que mostra os batimentos cardíacos e saturação. O monitor que apita se os números caem. As campainhas que me causam pânico. Naquela tarde Tom recebeu visitas (essa UTI tem horário tem visitas, somente uma hora por dia). Sua tia Isabela, e seu Dindo Flavio. Os dois ficaram abalados ao vê-lo daquele jeito. É engraçado como eu me abalo vendo os outros se abalarem. Consigo se forte por mim (às vezes), mas parece que ver os outros triste transforma tudo numa realidade muito mais presente. Difícil explicar. 

Mesmo com a máscara, Tom estava saturando mal. Os números iam caindo, e os alarmes ressoavam. Aquilo foi me gerando angústia. Aumentaram os parâmetros da máquina para mandar mais oxigênio, e colheram exames: uma gasometria, um exame que avalia o funcionamento dos pulmões medindo os níveis de oxigênio e gás carbônico no sangue. Pouco tempo depois da coleta voltaram. Teriam de repetir o exame. O primeiro voltara muito alterado, estavam duvidando do resultado. Recoleta (uma palavra que comecei a temer) feita, e resultados confirmados. Gasometria péssima. Os pulmões de Antonio não estavam funcionando bem. A médica me confirmou o que eu já esperava: teriam de entubar.

Por mais que a entubação não é nada agradável, para nós não é algo tão estranho. Já passamos por isso com Tom algumas vezes, e embora não fique mais fácil, não é desconhecido. Liguei para a Nathalie e avisei a notícia. Disse que ela não precisava vir para o hospital, e que avisaria assim que terminassem o procedimento. Todas as outras vezes que Antonio foi entubado o processo todo não durou mais que meia hora, no máximo. Então foi esperando isso que sai do quarto dele, não sem antes dar um beijo em suas bochechas inchadas, e dizer que eu estaria lá esperando por ele.

Sentei e esperei. E esperei. E esperei. Minutos passavam, depois uma hora… E ninguém saia daquele quarto. Pelo contrário, pessoas só entravam. A médica do Tom que foi ao hospital acompanhar tudo de perto também estava lá dentro. Comecei a andar de um lado para o outro muito impaciente. As enfermeiras saiam e entravam afoitas com materiais nas mãos. Uma das médicas plantonistas saiu e percebi que evitou contato visual comigo. As minhas pernas começaram a ficar bamba. E de repente escuto alguém, uma voz lá de dentro dizendo “pode deixar, já estou ligando para o anestesista”. Pronto. Foi um golpe no estômago. Peguei meu celular, liguei para a Nathalie. E tentando manter a calma para não deixá-la em pânico, mas logicamente com a voz absolutamente petrificada disse a ela “eu não sei o que está acontecendo, mas tem alguma coisa errada. Vem pra cá.” Depois disso eu desabei. Quase dez meses de hospital me deixaram calejada. Me considero uma pessoa forte, consigo aguentar muita coisa. Mas nessa tarde de domingo, estava tudo desabando ao meu redor. Em algum momento eu consegui ligar pra minha mãe e pedi para ela ir ao hospital. Estava com medo de estar lá sozinha. As pessoas vinham falar comigo, me mandavam sentar, beber água… Eu só queria saber do meu filho: o que estava acontecendo atrás daquelas portas? Porque aqueles alarmes estavam tocando? 

Em um tempo sobre-humano a Ná chegou. Quando ela entrou pela porta da UTI, agarrei ela e chorei. Choramos. Pela incerteza, pelo desespero. Não sei em que momento nos colocaram na sala das enfermeiras. Eu queria gritar. E no que pareceu ser uma vida depois a médica entrou. Eu olhei para a cara dela fixamente e ela disse: conseguimos. Ele foi entubado. Sentei, anestesiada. “Ele ficou muito inchado, muito rápido. Quatro médicos diferentes tentaram entuba-lo e não conseguiram. Chamei o anestesista, que após duas tentativas conseguiu. Foi muito difícil mantê-lo ventilado durante esse processo. Seu rosto ficou machucado.”. Eu achava que estava tudo resolvido. Pronto, entubou! Agora era só esperar ele melhorar. Em 10 meses tinha muita coisa que ainda não sabia…

Perguntei se poderíamos vê-lo, ela disse que ainda não. Falou para darmos uma volta, parecia que ela nos dava tarefas pra tentar nos ocupar. Eu andava pra cima e pra baixo arrastada, como se estivesse bêbada, fora de mim. Minha família toda estava lá. Uma hora voltamos pra dentro da UTI e me disseram que não tinha conseguido ventilá-lo no respirador comum, precisaram colocá-lo num ventilador de alta frequência. Esse ventilador é uma máquina medonha, parece algo que veio do programa espacial da antiga união soviética. Ele faz a pessoa tremer, e é de um barulho sem tamanho. Entrei pra ver meu bebê, e lá estava ele, todo tremendo, com o rosto machucadinho, marcas de sangue na boca. As marcas de mais uma batalha. Além disso, mais uma notícia: o cirurgião vascular estava a caminho, e colocaria um cateter em Antonio: ele teria de fazer hemodiálise. Um raio X tinha mostrado seu pulmão completamente encharcado. Ele entrou em choque séptico. Seus rins e pulmões pararam de funcionar. Tudo isso em questão de horas. Estava precisando de andrenalina e noradrenalina para que sua pressão arterial permitisse que seu coração continuasse bombeando sangue. Além da frequência cardíaca e saturação agora eu tinha um novo número para acompanhar no monitor da UTI: pressão arterial. 

Eu só lembro de flashes dessa noite. Lembro que em um momento ele tinha 12 medicações correndo simultaneamente. Lembro do barulho do respirador de alta frequência misturado ao barulho da máquina hemodiálise. Lembro da muita gente entrando e saindo do quarto. Da frequência cardíaca de Tom que naquela noite chegou a 220bpm. Da sua temperatura que oscilou de 35 para 39. Da médica mais dedicada (sua médica titular, não uma plantonista) que ficou lá com ele – e com a gente até às três da manhã. As horas se misturaram na minha cabeça, até que virou dia. E 6 da manhã a médica estava lá de volta para uma nova sessão de hemodiálise. E então ela nos disse: “ele sobreviveu a essa noite. Agora vamos em frente que nossa luta só começou. A parte dele, ele fez.”