Aprendi


No dia 24 de dezembro do ano passado descobri que estava grávida. Foi o melhor presente de natal que poderia ter tido. Com a notícia já comecei a sonhar – quando uma mulher se descobre grávida, ela automaticamente começa a projetar desejos naquele ser que está em construção. Naquela época não sabia ainda que eram dois bebês.

Esse ano foi sem dúvida alguma o mais intenso da minha vida. Tudo mudou. Eu virei mãe – o papel mais importante que já tive que desempenhar. Daniel e Antonio mudaram o meu significado de felicidade. Senti as maiores alegrias, mas também as maiores tristezas. Ter um filho doente está longe daquela idealização. É a pior coisa que pode acontecer com uma pessoa. Mas sabe o que eu descobri? Que o ser humano é resiliente. Eu sou resiliente. Que não podemos viver nos lamentando pelos cantos. Que o Antonio é a pessoa mais forte que já conheci. Ele conseguiu unir muita gente. Ele fez com que muita gente querida se aproximasse. Ele trouxe luz com sua luta inspiradora.

Não quero parecer livro de auto ajuda. Mas achar um significado para luta de Tom me ajuda a levantar todos os dias. Eu não sinto tristeza. Lógico que tem momentos muito difíceis, principalmente os que envolvem ele sentir dor. Mas ele está sendo bem cuidado. É rodeado de amor. Tudo que podemos fazer por ele está sendo feito. As pessoas têm nos perguntado, após o último post, se decidimos fazer ou não o transplante. É uma decisão muito complicada. Agora o que queremos é manter o conforto dele. Acredito que ele vai nos dar o insight sobre o que fazer.

Em outubro, quando ele teve a infecção, eu achei que ele ia nos deixar. Foi o único momento que pensei que ele pudesse estar cansado. Em um dos dias durante essa infecção ele teve uma parada cardiorrespiratória – eu não lembro de nada, só das minhas pernas tremendo no corredor da UTI, e uma enfermeira me dando um copo de água com açúcar. Depois que conseguiram trazê-lo de volta, fui até ele. É curioso como quando acontece algo com ele eu não consigo ficar perto porque me desespero vendo os procedimentos. Já a Nathalie não sai do lado dele. Enfim, fui até ele, e sussurrei no seu ouvido que ele podia fazer o que precisasse fazer. Em nenhum momento eu desisti dele. Mas acho que a energia em volta influência muito. Eu aprendi que como mãe não posso ser egoísta. A luta é de todos nós, mas ele é o principal guerreiro. Ele sabe o quanto de sofrimento aguenta. Já mostrou que tem um força descomunal. Ele mais uma vez escolheu ficar.

Com tudo isso que tem acontecido eu tive que sair do trabalho para me dedicar 100% aos cuidados de Tom. Foi difícil para mim, gosto de trabalhar. Mas foi a única escolha que faria sentido. Penso que quando voltar ao trabalho, terei uma outra abordagem. Essa escola que já dura cinco meses me ensinou mais do que qualquer coisa, que nos preocupamos com coisas banais. Nos aborrecemos com pouco. Nos estressamos. Esquecemos de ter gratidão. A vida pode ser leve. É questão de escolhermos isso. Meus dias com Antonio em seu quarto de hospital são leves. Rimos. Brincamos. Fazemos amizade com os profissionais que o atendem. As janelas estão sempre abertas. Sempre temos música e doces. Adoramos visitas. A doença pode acometer o corpo, mas deixá-la dominar todo o resto é também uma escolha.

Eu não sei como será a vida do Tom. Sei que ela será cheia de batalhas. Mas ele já está acostumado, e está nos ensinando. Mas sei de uma coisa: ela será leve. Será cheia de risada. O Daniel, meu outro presente, é a criança mais feliz que conheço. Ele acorda de manhã dando risada no escuro. Tenho certeza que ele tem muita coisa para ensinar para o Antonio, e vice-versa. Não tive gêmeos à toa. Essa dupla será imbatível.

E quem mais sai ganhando disso sou eu. Ganhei dois filhos maravilhosos esse ano. Ganhei uma família próxima, forte, e que se curte genuinamente. Ganhei novas amizades. Fortaleci muitas amizades. Outras que julgávamos próximas já não deviam ser tão fortes, pois se afastaram. Ganhei esperança de que as pessoas são boas, se mobilizam, se emocionam.
Passarei essa virada do ano com meu filho. Vamos nos dividir para que nas festas sempre estejamos com um dos meninos. É o meu final de ano ideal? Não. Mas fazia muito tempo que não me animava com as festas de final de ano. Tenho muito a agradecer. Antonio e Daniel me mostram isso diariamente.

Obrigada a todos vocês que nos acompanham, nos mandam votos, nos incluíram em suas preces diárias, que muitas vezes mesmo sem se conhecerem fizeram um corrente tão poderosa para a nossa família. Obrigada àqueles que cuidam ou cuidaram dele com tanto amor. Obrigada por se importarem. Obrigada.

Que o ano que vem de vocês seja incrível.

Beijo super carinhoso,
Bia, Ná, Dan e Tom.

7 pensamentos sobre “Aprendi

  1. Nunca vou esquecer o dia 24/12/2014! Quando você chegou aqui em casa, para a noite de Natal, chamou a mim e a seu pai para irmos ao “studio B”. Tirou um pacotinho , embrulhado para presente, de dentro da bolsa e nos deu. Eu não fazia ideia do que poderia ser e nem a razão pela qual havia nos chamado para uma conversa privada. Mas, quando abri o pacote e vi aquele teste de gravidez com ” positivo”, desabei a chorar! Nossa , foi muita alegria, um misto de euforia com muita emoção. Essas duas pessoinhas que aí estão trouxeram muitos significados para a vida de todos nós. Muito aprendizado, muita reflexão e, principalmente, a descoberta de um amor muito forte que eu nem sabia que existia. Dentro de todas as alegrias e tristezas pelas quais temos passado o que mais me impulsiona e o amor infinito que tenho pelos meus meninos. E uma admiração muito grande pela sua força e pela união de vocês nessa luta do amor X o desconhecido.

  2. Bia, tenho acompanhado seus posts e tento dimensionar o tamanho da força que tem. Lembro de vc pequena, estudei com sua irmã Simone quando moraram no Rio. Desejo a vc, aos seus filhos e toda a sua família que o próximo ano traga boas surpresas e que esse guerreiro, Tom, se restabeleça e possa ir para casa, ficar perto dessa família que o ama tanto. Feliz natal e que 2016 traga a recuperação do Tom. Bjs

  3. Bia, Naty, Dan e Tom
    Outro dia li que “Deus manda as maiores batalhas para seus melhores guerreiros”!
    Acredito que nada é por acaso e com certeza vocês conseguirão superar os momentos mais difíceis cercados de amor!
    Rezo pela saúde do Tom e desejo um 2016 de muita resignação e esperança.
    Muitos beijos carinhosos

  4. Bia…. Há alguns anos atrás quando você era toda apaixonada pelo meu Vini quem diria que você teria dois menininhos seus?!!! Já naquele tempo você demonstrou que seria uma mãe e tanto, pela forma e carinho que tratava meu pequeno…. Tenho acompanhado a luta de vocês e mesmo aqui em silêncio estou mandando boas energias… Que 2016 seja mais tranquilo!! Seus pequenos são lindos, e apesar de toda a batalha que enfrentam e ainda vão enfrentar tenho certeza que tudo valeu a pena!!! Deixe nas mãos de Deus, um dia entenderemos o motivo das pedras no caminho… Continuem seguindo com força. Vocês não estão sozinhas!!! Um enorme beijo… Saudade de você!!!

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