10 de outubro

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Finais de semana passaram a ter outro significado para mim – eu ia (ainda vou) para o hospital todos os dias, então não é que eram “dias de descanso”, mas como a Nathalie tem esses dois dias de folga, eles se tornavam mais “leves”. Foi num domingo que recebi uma ligação de um número desconhecido. Meu coração logicamente veio a boca e parei de respirar. Era a Dra. Renata, que já foi logo me assegurando que estava tudo bem. Ela estava ligando pois havia surgido uma vaga na UTI pediátrica, e a transferência do Antonio seria feita naquele dia. Corri para arrumar uma mala com as coisinhas dele. Roupas, mantas e o básico para mim. Passaria a primeira noite com ele.

Essa mudança trazia um misto de sentimento. Agora poderíamos ficar com ele o tempo todo, pega-lo no colo, decorar seu quarto, e, finalmente, dar a ele o toque e o colo de outras pessoas. Mas também era um lembrete de que sua estadia no hospital seria longa, e que teríamos de nos conformar com isso. A mudança foi feita, e eu não sabia muito bem o que sentir. Me doía deixar para trás aquela equipe de UTI neonatal de quem eu gostava tanto – e que cuidava tão bem dele. Sentia medo de ir para um lugar onde não conhecia ninguém. Me preocupava se Tom teria os mesmo cuidados.

O quarto dele era um quarto normal de hospital – quando ouvia “UTI pediátrica” imaginava um salão onde toda a galera ficava junta – mas lá os pacientes ficavam em quartos individuais, com televisão, banheiro, sofá cama para acompanhante. Ele ficava ligado ao já conhecido monitor de frequência cardíaca e saturação, e havia também uma câmera no quarto. Os dados desse monitor, assim como as imagens da câmera eram todos enviados para uma sala de controle, vigiada 24 horas. Um verdadeiro big brother. Além disso, havia um botão de “emergência” no telefone, que deveria ser acionado caso percebêssemos algo de errado.

A primeira noite de Tom em seus novos aposentos foi péssima. A solidão era imensa. Estávamos só nós dois. Apesar de ser boa a sensação de intimismo, era estranho não tem aquela agitação, as outras pessoas, as conversas. Querendo ou não, estar na neo era mais “fácil”, pois nunca estávamos sozinhos.

Ele certamente estava estranhando a mudança de ambiente, e eu não dormi sequer um segundo. As suas bombas de medicamentos apitavam de 5 em 5 minutos. Ele usava um cateter do diâmetro de um fio de cabelo. Esse cateter era dividido em duas vias. Imagina um fio de cabelo dividido em dois – nao preciso dizer que toda hora a via que levava sua alimentação parenteral entupia e a bendita bomba apitava. Tinha vontade de jogar a bomba no corredor, mas sabia que não seria muito sensato. Rs… Além disso tinha o monitor que também apitava de tempos em tempos, muitas vezes por alguma leitura errada. Também tinham as entradas dos enfermeiros para aferir a temperatura, pressão, rodíziar o sensor no pé dele. E, mais importante que tudo isso tinha o Antonio, que chorava. Levantava sempre que ouvia ele chorar. Com Dani em casa já tinha um pouco desse ritmo, então o choro em si não me abalava. Tentava conforta-lo, e ficava aliviada quando ele acalmava.

O dia amanheceu e eu estava moída. Com sorte conseguimos uma cuidadora para nos ajudar com Antonio na UTI. Acho que se não tivesse o Daniel eu teria me mudado para aquele quarto, mas não podia negligenciar meu outro filho. Passaria os dias com Antonio, e a cuidadora estaria lá para dormir com ele. Durante a noite poderia cuidar do Daniel. E assim a nova rotina se estabelecia.

O intestino de Antonio ainda não funcionava, e suspeitávamos uma nova obstrução. Ele foi submetido a alguns exames que confirmou a hipótese. Teria de ser submetido a uma nova cirurgia. A quinta. O cirurgião queria aguardar o corte na sua barriga melhorar um pouco, então entrávamos no jogo da espera. Os dia passavam sem grandes intercorrências, mas também não podíamos esperar grandes progressos. Rapidamente conheci a nova equipe que cuidaria de Tom, e fomos construindo um novo vínculo.

No dia 10 de outubro eles completavam 3 meses de vida. Não queria que a data passasse em branco. Decoramos o quarto todo com bexigas, e trouxemos bombinhas de chocolate para distribuir. Era um sábado. A Nathalie passou o dia com ele, e quando voltou para casa, fizemos a troca de turno para eu ir pro hospital. Minha irmã estava comigo – chegamos lá, festejamos e brincamos. Antonio foi para o colo dela, e uma hora começou a chorar. Fui dar a chupeta para ele, ele ficou quieto. Mas algo estava estranho. Peguei ele no colo, coloquei-o na cama. Ele parecia não respirar. Pedi para chamarem ajuda.

Entraram mil pessoas no quarto, mas eu não me lembro de nada. Tudo é uma névoa em minha memória. Os próximos dias seriam os mais difíceis até então.

Um pensamento sobre “10 de outubro

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