meses

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Depois da quarta cirurgia de Tom tivemos alguns momentos complicados. Como disse no post anterior, a gente acaba tirando forças de algum lugar para enfrentar tudo isso – mas não posso negar que tem horas que o bicho pega. No dia seguinte da cirurgia, o médico dele veio falar comigo. Disse que não tínhamos como saber o prognóstico ao certo, uma vez que o intestino (pouco) que sobrou do
Tom teria que começar a funcionar para ver o quanto ele seria capaz de absorver de nutrientes. Também falou que teríamos uma longa recuperação e internação pela frente. Aquilo foi um balde de água fria. O que será que “uma longa internação” significaria? Perguntei a ele, com um desejo que a resposta fosse negativa, se isso significaria meses no hospital. Contrariando o meu desejo, ele respondeu que sim.

Pensar em meses no hospital me deu um desespero que ainda não tinha sentido até o momento. Quem já teve um ente querido internado sabe o desgaste que é – ter isso por tempo indeterminado é torturante. Me permiti ficar triste. Contei para Nathalie a notícia, e ela compartilhou o meu sentimento. Foi um dia muito difícil para nós duas. Mas como de hábito, esse dia triste não poderia se alongar. Precisávamos continuar em frente, por ele.

Além da notícia que Antonio ficaria meses no hospital, também tínhamos a novidade que em breve ele seria transferido da UTI neonatal para a UTI pediátrica. Já estava crescendo, não queria mais ficar na incubadora fechada e precisava de mais estímulos. Essa transferência significaria que Tom iria para um quarto só seu, poderia receber visitas a qualquer hora e precisaria de um acompanhante 24 horas por dia. Também me dava um aperto saber que a equipe pela qual eu tinha tanto carinho ia deixar de cuidar dele. Teríamos mais ou menos quatro semanas antes da mudança.

Se recuperando da cirurgia, tivemos um acontecimento muito desagradável: o corte do Antonio abriu. Ao longo desses meses eu vou aprendendo várias coisas, inclusive coisas que nem imaginava possíveis. Na minha ignorância perguntei Pq eles simplesmente não davam novos pontos para fechar o machucado. Me explicaram que isso não era possível pois o risco de infecção era gigante. O corte teria que fechar sozinho – imaginem o tempo que não leva para uma incisão de cirurgia fechar sozinha. Também me sugeriram não ver o machucado pois estava impressionante. Achei por bem seguir o conselho.

É impossível não questionar o porque de tudo isso estar acontecendo. Um ser tão pequeno passar por tantas coisas. Um carinha que não fez nada para ninguém. Mas treinava fazer o que nos foi orientado no centro espírita. Não devemos ter pena do Antonio, pois a pena só o atrapalha. Temos que tentar entender que essa é uma guerra dele (e nossa também) e que ele precisa de apoio para enfrentar as batalhas. E é isso que tentamos fazer.

Antonio foi se recuperando da quarta cirurgia, e foi ficando mais forte. Não tínhamos muito a fazer a não ser esperar. Li sobre a síndrome do intestino curto, que ele agora tinha, e as leituras não eram muito confortantes. Decidi que era melhor não ficar pesquisando muito, e esperar para ver como seria a recuperação do Antonio. O médico nos chamou para uma reunião um dia para que pudéssemos falar sobre a sua condição. Por causa do intestino curto, da longa internação, do prognóstico meio incerto, Antonio corria muitos riscos. Ele era suscetível a infecções, principalmente por causa do cateter usado para sua alimentação parenteral (Antonio não podia ingerir nada de alimento, pois o intestino doente ainda não seria capaz de receber). Esse cateter era o que o mantinha vivo, mas era motivo de preocupação constante. Acho que seguindo o protocolo, naquele dia nos foi perguntado o tipo de esforço que gostaríamos que fosse feito caso ele tivesse uma grave infecção. Eu não respondi a pergunta de imediato Pq confesso que não tinha entendido o que estavam me perguntando. Quando a ficha caiu, desabei de novo. Como é que as coisas chegaram a esse ponto?

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2 pensamentos sobre “meses

  1. É curioso…. Não posso – e nem poderia – imaginar exatamente o que vocês estão passando, Tom obviamente incluido. Mas tudo isso que você descreve me passou pela cabeça. Num outro ritmo, muito mais tranquilo sem dúvida, com outro tom, certamente menos desesperado. Mas pensei e penso em tudo isso. Um processo doloroso e complicado para todo mundo. Daí que vê-lo sorrir quando tira a sonda se torna o maior acontecimento do mundo!

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