dom

Nós sempre ouvimos que quando fazemos o que gostamos, temos mais sucesso. Eu acho que às vezes, além de gostar, é preciso ter um dom. Por diversas vezes nessa história, fiz menção ao trabalho da equipe que cuidou de Dani e Tom, principalmente o trabalho das enfermeiras.

Quando você é arremessado nesse mundo de UTI, você não sabe nada. Não sabe as regras implícitas e explícitas, não sabe quem faz o que… alem de ter que lidar com o fato da doença ou problema em si, você tem que aprender a navegar num mundo novo, sem ter sido preparado para isso. A primeira vez que entrei na uti neo, quando quase desmaiei, já tive um retrato das pessoas responsáveis pelo cuidado com meus filhos. Não lembro quem foi que me acudiu, mas sei que foram extremamente cuidadosos comigo.

É difícil você dar a luz e não poder estar com seus filhos 100% do tempo. É quase insuportável você ter de aceitar que outras pessoas estarão cuidando deles. Quando você percebe que as pessoas encarregadas desse trabalho o fazem com amor, a dor fica um pouquinho mais tolerável.

A primeira enfermeira que lembro ter conhecido e que cuidaria do Dani e Tom se chamava Zélia. Ela parecia ser jovem, mas era muito segura no que fazia. Pegava os pequenos com destreza – nos explicou que prematuros não gostam de ser “alisados” pois suas peles são muito sensíveis, então deveríamos optar por um toque firme quando encostássemos neles. Eu fazia milhares de perguntas, e ela respondia todas. Ela tratava eles com tanto cuidado e carinho que eu ficava infinitamente mais tranquila de deixa-los lá.

Aos poucos fomos conhecendo todas as enfermeiras que cuidavam dos meninos. Elas se referiam a eles como “filhos” e, ao invés de ter ciúmes, eu preferia assim. A trupe incluía, alem das enfermeiras e médicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e técnicas de enfermagem. Cada um vestia uma cor diferente, e aos poucos fomos nos familiarizando com o trabalho de cada um. Nunca imaginaria que a fono entraria para ajudar os bebes a aprenderem a mamar. Quando fomos promovidos para a unidade semi intensiva, senti saudades de quem cuidou dos meninos na UTI – você cria um vínculo grande com as pessoas que cuidam dos seus filhos.

Aquela foto dos dois juntos, a única que tenho, só foi possível por causa de uma peripécia da enfermeira Carol – ela pegou o Dani, e disse para mim “vamos aprontar um pouquinho!”. Fomos até a incubadora do Tom, a Zélia logo abriu e colocamos os dois juntos. Que emoção!!!!! Meus dois meninos, juntinhos pela primeira (e única) vez depois do nascimento. Ela me deu um presente maior do que pode imaginar.

Tom voltou para a UTI pouco antes de completar um mês. Voltou para uma sala diferente, então eu não conhecia ninguém. No dia do seu primeiro mesversário, ganhou uma faixa das tartarugas ninja, assinada por todos que tinham cuidado dele. Nós levamos balas de brigadeiro, tão tradicionais nas comemorações de aniversário dos Rositos, para comemorar e agradecer o carinho.

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Uns dias depois da cirurgia de emergencia, Tom fez um ultrassom do abdomem – como de hábito, fiquei ao seu lado para acompanhar. Dessa vez, foi muito difícil – ele tinha feito a ileostomia, que ainda sangrava, e tinha o corte da cirurgia. Ve-lo peladinho, com a barriguinha sangrando, entubado, e chorando – foi demais para mim, e desabei de chorar. Como não queria atrapalhar o exame, que era necessário, chorava quieta, enquanto segurava sua mão. Camila, a enfermeira que ficava com ele nas manhãs me viu, me deu um abraço e perguntou se eu queria que ela ficasse lá segurando a mão de Antonio. Disse que não, mas fiquei mais tranquila  de saber que não estava sozinha – ela estava lá, e poderia me ajudar. Foi ela que me disse também que tinhamos que manter a cabeça erguida pq a atitude dos pais (mães, no nosso caso) influenciava muito o progresso das crianças, Sempre que eu recebia uma notícia mais difícil e ficava mais cabisbaixa, ela me lembrava disso.

Antonio ia crescendo, e não era mais um daqueles bebês pequenos de incubadora. Queria interagir, seus olhos gigantes observavam tudo e todos. Virou o xodozinho da sala onde estava. À tarde normalmente ficava aos cuidados da enfermeira Érica – o que me deixava sempre emocionada era a forma que ela explicava tudo para ele. Antes de colocar uma medicação, ela falava “Antonio, agora estou colocando o seu antibiótico, e depois eu vou trocar o seu curativo. Não vai doer, tá?”. Ela tratava ele como uma pessoa, que merecia satisfação. Aprendeu logo tudo que ele gostava, e fazia de tudo para mante-lo o mais confortável (e feliz) possível.

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Uma das minhas maiores frustrações (ainda é), é que nunca via o rosto do Antonio livre de sondas, cânulas e etc. Um dia, o menino decidiu arrancar a própria sonda – Sabrina, uma enfermeira que ficava de manhã não teve dúvidas: tirou uma foto do rostinho dele sem nada, e mandou para mim no Whatsapp. Não sei se ela imagina a emoção que senti ao ver aquela foto.

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Antonio ia crescendo, e ficando mais choroso. Passávamos muito tempo tentando acalma-lo. A enfermeira Heloisa era pró em pega-lo no colo e ficar chacoalhando até que ele acalmasse. Mexia com vigor, enquanto dava tapas firmes. Era mágico. Tom também não gostava de chupeta, mas gostava muito de sugar – me ensinaram a colocar luva e oferecer meu mindinho para ele. Ele sugava aquilo como se fosse um néctar dos deuses. Ele estava em jejum desde a segunda cirurIMG_8215gia, então sentia uma necessidade maluca de sugar. Quando eu estava lá, ficava com o dedo na boca dele – mas quantas vezes cheguei naquela UTI para ver uma das meninas parada, com o dedo dentro da boca do Tom, fazendo carinho em sua cabeça. Nessas de tentar livrar Antonio da ~dependência do dedo~, sugeriram que eu tentasse achar um chupeta com o bico mais fino e redondo. Procurei uma chupeta assim, mas não achava. Achei algo parecido na Amazon americana, e mandamos importar. Antes da chupeta milionária chegar (dólar a quatro reais, não tá fácil para ninguém…), um dia chego na UTI e a enfermeira Cléia me entrega um saquinho. Ela tinha comprado duas chupetas para Tom. Esses gestos enchiam meu coração. Vale dizer que a chupeta americana chegou, Tom nem tchum pra ela, e até hoje só quer saber da chupeta que tia Cléia deu.

Veio o segundo mesversario do Tom, e com isso uma nova faixa de parabéns, lotada de assinaturas e desejos de felicidades. Era muito bom saber que meu filho era tão querido. Meu pai muitas vezes disse que para trabalhar com isso, não basta só ser bom tecnicamente: é preciso ter um dom. E todas as pessoas que cuidaram, e ainda cuidam do Tom hoje são iluminadas, e eu serei eternamente grata a esse carinho, e esse toque humano que torna todo esse processo um pouco mais fácil. Posso dizer que conheci seres humanos incríveis que vão ficar para sempre comigo. É o tal do ~silver lining~.

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8 pensamentos sobre “dom

  1. Bia e Naty…estou absolutamente emocionada e apaixonada com a história de vocês! Que lindo ver o quanto esse amor está fazendo vocês superarem a cada dia a dificuldade de ter o Tom ainda no hospital! Estou vibrando muitas energias pra que esse pequeno lindo guerreiro logo esteja bem e brincando com o Dani, alegrando toda a família! Parabéns! Vocês são guerreiras também! Super beijos

  2. Meninas, como costumo chamar vcs..desde a primeira vez que vi Antonio na utiped, aqueles olhinhos me encantaram e mexeram comigo de uma maneira mágica..parece que querem me dizer algo que ainda não descobri..mas ainda vou! Vcs são mães maravilhosas..tenho aprendido muito com vcs nesses últimos dias! Prometo cuidar dele todos os dias com muito amor..e retribuir de alguma forma a ternura que seu olhar me transmite! Até amanhã meninas! Bjos enfermeira Marcella

  3. Meninas. Tenho me emocionado cada vez que tenho o prazer e o privilegio de ler o blog de vocês. Parabéns pela coragem e garra. Tenho uma irmã gêmea e sei que tudo vai dar certo para vocês e os meninos.

  4. Lindo!!! Resume exatamente esses seres humanos incríveis fazem de dias …ou meses difíceis…ficarem mais leves e até prazerosos….Lembro com muito amor daqueles 45 dias …nos quais o Vini foi tratado com tanto carinho…sim elas são anjos e além de cuidar dos nossos pequenos cuidam da gente. Equipe da NEO é maravilhosa . 😍😘

  5. oi meninas, parece que foi ontem que recebi a mesma foto por whatsapp do benjamin qdo arrancou a sonda e o bigode. nossa, me identifiquei com tanta coisa desse post. a carol dando umas aprontadas deixando tudo mais leve, a zelia bem novinha, mas muito firme (ela não cuidou do Ben, mas eu tomava umas broncas dela qdo aprontava tbm 🙂 – nosso tempo foi curto, 25 dias graças a D-us, foram dias duros e pesados, mas guardo com muito carinho e faço uma festa qdo encontro alguma das enfermeiras, técnicas, fisios, fonos e médicas. a pscicóloga da uti um dia me falou: ele tem o tempo dele, e o tempo dele não tem 24h. a gente conta o tempo, ele não, é só o tempo que passa. e vai passar e no tempo dele ele vai pra casa. fiquem bem. com amor, rosa

  6. Fiquei com lágrimas nos olhos ao ler como a enfermeira Erica explicava para ele o procedimento, como fazem conosco qdo estamos internadas…
    Nas 3 tentativas que o Flávio tentou me levar junto para ver o Tom, eu me imaginava conversando com ele, mesmo sabendo que talvez ele não entendesse nada do que eu estava dizendo, mas certamente ele estaria “escutando” carinho…
    Li uma vez a importância de a gente dialogar com o bebê, desde a fase do gugudadá.
    Não vejo a hora de poder de fato conversar com ele.
    Será que afilhado de filho é anetado?

  7. Na
    É a Dani Rapoport do Vera…
    Minha nossa que história emocionante que vcs estão vivendo. Acompanho o blog desde sempre (e detalhe: n sabia que era vc ahaha) sou meio desligada vc sabe…
    Bom meninas em primeiro lugar parabéns pelos babys maravilhosos e saibam que estou mandando energias positivas com muito amor, carinho e força para que o pequeno guerreiro passe logo esse momento é possa estar em casa com vcs!
    Fiquem com Deus e parabéns pelas “pães” que estão sendo e força que vcs estão tendo!
    Bjo grande no coração das duas!

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