bradicardia

IMG_8208As quase quatro semanas entre a terceira e quarta cirurgias se arrastaram. A rotina já estava instalada e rapidamente percebia a nossa resiliência – o ser humano é mesmo capaz de se adaptar, mesmo quando as condições são adversas.
Tom ficou bastante tempo entubado, e com isso vinha o inchaço e a vontade de pega-lo no colo. Estava ao seu lado todos os dias, chegava de manhã ao hospital e ia embora no final da tarde. Achei uma forma de me dividir entre Antonio e Daniel, por mais que essa divisão fizesse com que sentisse saudades a todo instante. Daniel crescia deliciosamente, virando rapidamente nosso gordelícia bolota. Enquanto ia para o hospital ficar com Tom, Dani passava os dias na casa da minha mãe. Ficava tranquila sabendo que ele estava sendo bem cuidado, mas também ficava com um enorme aperto de ficar longe do meu filho. Eu sempre estou longe de um dos meus filhos, e é assim que tenho aprendido a funcionar.
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Sentava ao lado da sua incubadora, segurava sua mão e basicamente estava lá. Nossa trupe de médicos contava já com seu pediatra neonatologista, nutrólogo para as questões relacionadas ao intestino, hematologista, pq Tom usava um cateter (ainda usa) com risco de causar trombose, e um cardiologista. Nesse período entre cirurgias, Tom nos deu alguns sustos.
Na UTI neo, ao lado da incubadora fica um monitor mostrando os valores de saturação (o quanto de oxigênio tem no sangue) e frequência cardíaca. Esse monitor é programado para apitar quando esses números ficam abaixo ou acima do parâmetro aceitável. As campainhas que tocam passam a ressoar na cabeça, e observar os números vira uma verdadeira obsessão. Normalmente os números do Tom ficavam dentro dos parâmetros. Um dia, estava ao seu lado e vi os números da frequência cardíaca despencarem. Eu parei de respirar. Posso comparar a sensação de ver isso a descer do topo de uma montanha russa. Eu odeio montanhas russas. A princípio acharam que tinha sido um erro de leitura. Daí aconteceu de novo, e de novo. Tom estava tendo bradicardias.
Como a UTI neo abriga todos os bebês em um salão, quando fazem um procedimento mais delicado com uma criança, bloqueiam a entrada de todos. Colocam uma placa “UTI bloqueada” e orientam a recepcionista a não deixar ninguém entrar. Um dia, cheguei para ver Tom e a odiada placa estava na porta. Perguntei à recepcionista o motivo do bloqueio mas ela não soube me dizer. O nível de ansiedade nesses bloqueios subia absurdamente, Pq você sempre pensa que é algo com o seu bebê. Fiquei esperando horas, com aquela angústia, sem notícias e sem poder ver Tom. Até que o médico (hoje pediatra do Dani e do Tom) saiu e disse que precisava falar comigo. Montanha russa feelings parte dois. ODIAVA quando os médicos falavam que queriam falar comigo. Tom tinha tido uma nova crise de bradicardia, mas dessa vez não voltou sozinho. Precisou ser massageado e foi quase entubado. É amigos, já tinha sacado que essa minha jornada na maternidade seria um verdadeiro “teste para cardíacos”.
Depois desse susto ele ficou bem – até que num domingo eu fui cedo para o hospital, um dia lindo. Estava feliz e contente – pensando, acho que desenvolvi uma espécie de síndrome de Estocolmo na UTI Neo. Eu gostava de passar os dias lá, logicamente por causa do Tom, mas também gostava muito das enfermeiras (que merecem um post a parte) e médicos. Naquele domingo, quando entrei na UTI me aproximei da incubadora do Tom. Ninguém me deu oi. Quando fui chegando mais perto, percebi que o respirador estava ligado. Olhei meu bebê, e lá estava ele, entubado. Acho que virei o gasparzinho de tão branca. A médica logo me viu e veio correndo falar comigo. Tom tinha tido uma bradicardia (e uma parada cardíaca), mas dessa vez não voltou tão rápido e decidiram entuba-lo.
Depois de investigações que afastaram hipóteses de problemas cardíacos e neurológicos, a nossa médica residente favorita, Dra. Renata, levantou a possibilidade do motivo dessas “bradis” ser dor. Antonio sentia muita dor. Quando sua medicação foi alterada, essas pegadinhas do malandro acabaram (por hora). Falando em medicação, vale dizer que Tom tomou de tudo, inclusive morfina. Enquanto estava entubado, tomou um forte sedativo chamado fentanil. Quando a medicação foi suspensa, nosso pequeno ficou irritado, bravo e choroso. Era abstinência. Os médicos então me informaram que entraria com um remédio chamado metadona para ajudar. “Pera aí” eu disse: “metadona é remédio para viciados em heroína!”. É gente, meu bebezinho estava tomando remédio de gente grande.
Tom ficou com um quadro mais estável, e logo os médicos falavam de marcar a quarta cirurgia, a que deveria ser a última. Esperar virou algo tão natural para nós quanto respirar.
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3 pensamentos sobre “bradicardia

  1. Meu Antouro eh a pessoa mais forte que ja conheci. Hercules, Iron Man, Superhomem…nada se compara a forca que ele tem. As mamaes sao verdadeiras fortalezas, que tenho orgulho de chamar de minhas irmas!
    Antouro, eu, vc e o Dani ainda vamos aprontar muito!❤️❤️❤️❤️

  2. Senhor dos Mundos, Excelso Criador de todas as coisas.
    Venho à Tua soberana presença neste momento, para suplicar ajuda para o “Tom”.
    Sabemos que as enfermidades nos favorecem momentos de reflexão, e de uma aproximação maior de Ti, pelos caminhos da dor e do silêncio.
    Mas apelamos para tua misericórdia e pedimos:
    Estende Tua luminosa mão sobre “Tom” o pequeno guerreiro.
    Faz a fé e a confiança brotarem fortes em seus corações.
    Alivia suas dores e dá-lhes calma e paz.
    Dá-lhes alívio, consolação e acende a luz da esperança em seus corações, para que, amparados pela fé e a esperança, possam desenvolver o amor universal, porque esse é o caminho que nos leva a Ti.
    O “Tom” tem uma enorme vontade de estar aqui entre nós, esta lutando com aquela vontade de estar junto a família, parte do mundo esta em oração na recuperação desse pequeno guerreiro…
    Que assim seja!!

  3. Gostei do termo sindrome de estocolmo.. Acho que também tive isso, ficava feliz de ficar naquela vidinha de bater papo com as enfermeiras.. Antonio é indiana jones, sai de uma aventura e já vai pra outra!

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