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nathalie

Meu telefone e o da Bia dividem a mesma conta no iTunes, então eles, bizarramente, tocam juntos, quando estão no wi-fi. Meu telefone já tinha tocado e eu havia perdido a chamada. Atendi ao telefonema que era para a Bia. Era o médico da neo natal.

Ele parecia aflito e escolhia cuidadosamente todas as palavras. Disse que o médico da madrugada tinha achado o abdómen do Antonio um pouco distendido e tinha feito um raio-x para averiguar. Encontraram sinais de vazamento/perfuração do intestino; estômago e intestino de tamanho alterados. Eles não sabiam o que era ao certo, mas pediu que fôssemos o quanto antes para o hospital: o Antonio seria operado em pouco tempo, em caráter de urgência. Segunda operação dele com pouco menos de um mês de vida.

Congelei naquele momento e acendi um cigarro antes de conseguir contar para a Bia sobre o telefonema. Estava em choque. Parecia estar tudo bem, comemorávamos cada grama que ele ganhava como uma contagem regressiva para ele ir para casa.

E agora, com esta notícia?

bia

Aquela manhã foi uma névoa. Não consigo lembrar que dia da semana era, dia do mês ou se fazia sol ou chuva. Não lembro das horas passando. Ouvi Nathalie falando com alguém do hospital – quando percebi que era com o médico, meu coração bateu mais forte. Ela colocou no relato dela tudo que foi dito, mas o que lembro foi dela falando “abdômen distendido” “exames” “Antonio terá que ser operado” “temos que ir para lá”. Parecia que eu tinha levado um chute no estômago.

Entramos no carro e rumamos ao hospital. No caminho, avisei algumas pessoas que Tom seria submetido a nova cirurgia. As pessoas se sensibilizam e normalmente são super acolhedoras. Mas nesse dia percebi como aquilo estava sendo vivido só por nós – os desejos de boa sorte eram rapidamente deixados de lado para a retomada de assuntos corriqueiros. Não culpo ninguém, pois já devo ter feito a mesma coisa. A vida continua, mesmo se para você o mundo está congelado naquele instante. Mas é difícil…

Chegamos no hospital e acho que devo ter entrado correndo na UTI. Vi Antonio rodeado de médicos e enfermeiros. A cara dele está péssima, não sei descrever sua cor. Enfermeiras me paravam para compartilhar o susto comigo. Eu chorava muito e todos me olhavam com aquele olha que confirmava que minhas lágrimas eram legítimas. Recebi abraços e só soluçava. Não sei com quem e o que falei. Estavam entubando Tom.

Devo ter assinado papéis e autorizações. Devo ter falado com anestesistas e cirurgiões. Mas não conseguia tirar aquela imagem do Antonio da cabeça. Aquela cor.

Levaram ele para o centro cirúrgico dentro da encubadora. Nunca vou esquecer a procissão de médicos, enfermeiros, segurança (sempre que um bebê é levado para fazer um procedimento no hospital, um segurança acompanha) que passou por mim em câmera lenta. Olhei para o Tom e disse que estava com ele, para ele ser corajoso e que eu estaria esperando por ele. Não estava entendendo o que tinha acontecido.

O hospital disponibiliza uma sala de conforto para as mães com bebês na UTI. Esta sala tem um sofá, duas cadeiras, uma poltrona, bolachas, chá, um banheiro e uma televisão. Ficamos lá enquanto a cirurgia rolava. Horas. Não sei o que fiquei fazendo enquanto isso rolava. Sei que troquei algumas mensagens de texto com minha amiga Claudia, nas quais ela me aconselhava a não tentar entender o porque daquilo estar acontecendo, mas tentar entender as coisas que aquilo estava fazendo eu sentir. Eu sentia preocupação. Raiva. Tristeza.

Ligaram para nós do centro cirúrgico e disseram que a cirurgia estava em andamento. Os minutos se arrastavam. Horas depois (acho que umas cinco horas) subiu uma das médicas e nos chamou. A cara dela estava tão acabada quanto a nossa.

Lembro de flashes do que ela disse: “muito grave” “parada cardíaca” “reanima-lo” “necrosou” “perfuração”. Tinham pausado a cirurgia, ele não aguentaria continuar, teriam que fazer uma “rebordagem” nos próximos dias. Ele ficaria entubado e sedado enquanto isso.

Quando você está acostumado a ter as coisas sempre dando certo na sua vida, é bizarro ter que ouvir essas palavras. Como assim a cirurgia não foi maravilhosamente bem, e ele não tá lindo e aguardando uma ótima recuperação? Como assim ele quase se foi?

Tom teve uma condição chamada enterocolite necrosante – “A enterocolite é uma doença pela qual a superfície interna do intestino sofre lesões e se inflama. No caso de ser grave, uma porção do intestino pode morrer (necrosar), ocasionando perfuração intestinal e inflamação do peritônio (camada que reveste a cavidade abdominal). A doença afeta principalmente os recém-nascidos prematuros. Ainda não se identificaram completamente suas causas. Mas sabe-se que entre elas está a inadequada irrigação de sangue para o intestino que pode lesar parte do mesmo. As bactérias podem invadir a parede intestinal danificada e produzir gás dentro da mesma. Se a parede intestinal se perfurar, os conteúdos intestinais podem invadir a cavidade abdominal e produzir uma infecção (peritonite). Esta pode se estender à corrente sanguíne causando sepse (infecção generalizada) e até causar a morte.” (http://prematuridade.com/saude-do-prematuro/enterocolite-necrosante#sthash.uHtPIOlk.dpuf)

Ele teve quase que a pior forma da doença. A evolução do quadro foi tão rápida que surpreendeu a todos. Mas ele já estava dando sinais que algo não ia bem.

As próximas horas seriam críticas. Os dias então, nem se fale. Tom perdeu, pela segunda vez, partes do intestino. Nós vimos ele, sedado e entubado, e eu não conseguia nem falar. Parecia que tinha levado uma surra. Me sentia num jogo de tabuleiro, tendo tirado a carta “volte até o início” – o que não sabia é que tinha voltado até antes de onde tínhamos começado.

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6 pensamentos sobre “volte para o início

  1. Tom… o que dizer por você, Senhor Jesus, que o Senhor esteja naquele centro cirúrgico, derrame seu Poder lá, Coloque teus anjos ao lado do Tom,dando sonhos bons a ele! tira toda dor e todo desconforto do Tom!que cada dia sua recuperação se faça alegria tanto pra ele e pras ma-mães, Deus opere o Tom através das mãos dos médicos sem deixar sequelas, forças Tom vc é um campeão Deus esta com as criancinhas…

  2. Inimaginável tudo o que ele já passou. Aterrorizante cada momento que vcs viveram… Não sei o final da história, mas estou orando com todas as minhas forças para que tudo isto fique para trás e vc duas possam ter uma vida normal, junto com seus filhos. Mentalizo vc todos felizes!!

  3. Aquela sensação de que um caminhão saiu do nada e te atropelou… Antonio vai ficar bem, to vendo nesses olhinhos altamente expressivos 🙂

    E vamos beber cidra no primeiro cocozinho dele pós cirurgia, porque faz parte comemorar excrementos!

  4. Como vocês quatro são fortes e quanto amor tem na família de vocês. Seus meninos são muito sortudos de terem vocês como mães. Como mãe, fico emocionada com cada entrada do blog. Sending all of you my deepest admiration, respect and love.

  5. Tive prematuros e minha filha foi operada do coração ais 18 duas…sei bem como é difícil…aterrorizante. Deus vai ajudar o Tom e, como disse meu médico ao tentar me tirar do desespero ” diga a ele que vai dar tudo certo, que ele é forte e consegue ficar bom e que vc vai sempre estar com ele , porque o ama”
    Torcendo por vocês, de coração .
    Fiquem bem. 💖💖🙏🏻🙏🏻✨✨

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