mudança

Levar o Daniel para casa foi uma alegria sem tamanho. Viemos o caminho todo no carro com o maior cuidado possível. Como o dia da alta foi o dia da mudança, estávamos indo para a casa dos meus pais. Nunca imaginei que meu antigo quarto seria onde passaria a primeira noite junto com o meu filho. Montamos tudo que precisaríamos lá. Foi uma emoção sem tamanho ver a minha mãe segurando Dani pela primeira vez.

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A alegria vinha com um misto de tristeza profunda. Sair do hospital com só um bebê foi muito difícil. Sabia que enquanto Dani estaria rodeado por família, meu Tom continuaria no hospital. Sentia uma culpa enorme. Não imaginava que seria tão difícil, mas me acabei de chorar quando estávamos todos em volta do Dan.

As primeiras trocas de fralda e mamadas foram rodeadas de tensão. Ele pesava só dois quilos no dia da alta, então ainda era um bebê super pequeno. Tinha que manter um regime super rigoroso de mamada a cada três horas para que ele engordasse. À noite precisava mamar meia noite, três e seis da manhã. Está enganado quem acha que teríamos que dormir em intervalos de três em três horas – era muito menos. O processo de trocar e dar o leite levava no mínimo uma hora (com sorte). Como precisava ganhar peso, depois de dar o peito precisava também complementar com mamadeira. Então trocar a fralda, dar peito, dar mamadeira, arrotar e fazê-lo dormir era uma verdadeira epopeia. Às vezes terminava o processo faltando menos de uma hora para começar de novo.

Não lembro se foi na primeira ou na segunda noite que exausta, fui dar mamadeira para Daniel. Sem nenhuma pratica, deixei ele se babar todo. Fazia um frio danado nesse começo de agosto, e não podia deixá-lo molhado. Ele estava usando várias camadas de roupa por causa do frio, e eu precisei trocar todas. Lógico que ele acordou no meio do processo e começou a chorar muito. Minha mãe me ajudou a troca-lo pois fiquei meio paralisada.

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A rotina se instalou, os dias eram divididos entre hospital com Tom e casa com Dani. Ficamos num esquema meio improvisado na casa dos Meus pais, a apelidei carinhosamente o quarto onde estávamos de “cortição”. Minha mãe ficava com Dani enquanto estávamos fora. Assim pelo menos não precisava me preocupar com quem ficaria com ele e se estava sendo bem cuidado. Família é tudo em momentos de crise.

A mudança foi feita, e era como se não tivesse mais casa. A casa antiga, o primeiro lugar onde morei sozinha, tinha sido empacotado e esvaziado. Nem me despedi direito e não vi ela vazia. A casa nova ainda não era “casa”, estava cheia de caixas. Minha irmã diz que eu sou uma “hoarder”, talvez ela tenha um pouco de razão. Meu plano era fazer uma mega limpeza antes da mudança, mas não rolou… Eu sou muito particular sobre a organização da minha casa – gosto das coisas organizadas, e de saber onde fica tudo. Com a rotina que estava vivendo, não sabia quando ia conseguir desempacotar tudo e arrumar. Foi então que a Nathalie me disse “você vai ter que aceitar ajuda. Eu vou recrutar pessoas e nós vamos desfazer as caixas para que possamos mudar. Não podemos além de tudo ficar sem um espaço nosso”. Sabia que ela tinha razão, mas foi difícil aceitar. Então, ela recrutou minhas irmãs e uma amiga nossa, a Pi. Em um final de semana elas fizeram um milagre naquele apartamento. Não sei como conseguiram, mas transformaram aquele caos em “casa”. Agora só tínhamos que mudar.

Enquanto isso, Antonio tinha sido transferido para a unidade semi intensiva da neo. Precisava ganhar peso para ir embora para casa – uma tarefa que não estava se mostrando muito fácil. O peso dele estagnou por uns dias, e ninguém entendia muito porque. Além disso, começou a ficar com umas feridinhas no bumbum, e sofria muito com trocas de fralda. Teve um dia que teve uma queda de temperatura corpórea brusca, mesmo dentro da incubadora. Agora vejo que todos esses eram sinais que ele estava dando que algo não estava bem.

Um dia à tarde, coloquei ele para mamar no peito (ele tinha evoluído tão bem que uma vez por dia já mamava no peito) mas ele recusou. Lembro que segurava ele só com um braço, de tão levinho que era. Tentei por um tempo, mas ele não queria mamar. Tentamos então dar mamadeira, mas além de recusar, parecia que estava enjoado, ameaçava vomitar. Esse dia, na hora que estava indo embora ele começou a chorar muito. Olhei para ele e disse “não posso deixar você chorando!” e peguei ele no colo. Ficamos juntos um tempão, até que ele acalmou e adormeceu. Ainda bem que peguei ele no colo. Era como se eu estivesse pressentindo o que estava por vir. A foto que tirei dele nesse dia mostra um rostinho preocupado. Tom é um bebê com expressões de quem já viveu uma vida.

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O dia seguinte seria o dia que nos mudaríamos para casa nova. Tínhamos nos organizado que a Nathalie levaria o Dani enquanto eu ficava com Tom no hospital. Acordamos cedo e sentei para comer alguma coisa. Não ouvi o telefone tocar, mas ouvi a Nathalie falando com alguém do hospital. E dessa vez, o telefonema não era para tratar de um assunto banal.

Um pensamento sobre “mudança

  1. Puro amor este blog, meninas! Parabéns pela coragem e estou rezando pra família estar logo reunida!! Força pra vcs e contem comigo, caso eu possa ajudar de alguma maneira!

    Beijos grandes,
    Marina

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