(meia) alta

imageOs próximos 17 dias correram sem nenhum grande susto. Os dois tiveram icterícia e precisaram ficar no banho de luz. Eles odiavam usar aqueles “óculos escuros”. O Dani estava respirando bem, comendo pela sonda e já começando alguns estímulos com a fono para trabalhar na sucção. Seu objetivo principal era o ganho de peso.

Tom vinha num pós operatório bom – teve apenas problemas com plaquetas baixas e anemia. Precisou de algumas transfusões de sangue e plaquetas. Fez um exame para ver o trânsito intestinal, e os resultados eram bastante animadores. Eu sonhava todos os dias com todos os exames que ele fazia.

Depois do parto, consegui ficar 5 dias internada. Por mim teria ficado muito mais. Era muito fácil sair do quarto, descer três andares e ir até a UTI neo ou até o banco de leite. Estava morrendo de medo do dia da alta, de ficar longe dos meus bebês.

Acho que a mulher que tem filho deve ter algum chip instalado que faça com que deixar seu recém nascido seja uma tortura. Ter alta e voltar pra casa de “mãos abanando” depois de parir é uma dor indescritível. É um sentimento de culpa, misturado com tristeza e agonia. Comecei a chorar antes mesmo de entrar no carro. Tive dois filhos e nenhum deles estava comigo.

É uma boa hora para contar que nós estávamos em processo de mudança de casa. Antes da chegada dos dois meninos, nosso plano era mudar para um apartamento maior. Estávamos fazendo uma pequena reforma no novo lugar antes de mudarmos. Lógico que não conseguimos fazer a mudança antes do nascimento precoce deles. Nem pronto o quarto deles estava. Todas as coisas do enxoval estavam em caixas e malas na casa da minha mãe, que montou um verdadeiro esquema de guerra para lavar e passar as roupinhas e mantas que seriam usadas no começo. Então saímos do hospital para ir para um apartamento que não era o “certo”, sabendo que teríamos que encarar uma mudança pela frente. E querendo ou não, eu estava “recém operada”.

O primeiro dia em casa após minha alta foi péssimo. Só chorava. Na manhã seguinte fomos bem cedo para o hospital. Tinha um sentimento misto sobre as manhãs. Do mesmo jeito que ficava feliz que veria os meninos, sentia um verdadeiro pânico daquela primeira conversa com os médicos na manhã. Tinha medo de receber as novidades, medo de que algo não estivesse indo bem. Como eu aprendi desde então…. Nós poderíamos ligar à vontade para a UTI para ter notícias dos bebês – mas nos avisaram que não passariam nenhuma grande notícia, somente se dormiram bem, fizeram xixi e etc. O motivo para isso é que no passado já tiveram pessoas ligando se passando por pais buscando informações. Avisaram também que só ligariam para nós em caso de uma emergência grave ou para algo bem banal – como por exemplo pedindo uma chupeta nova ou algo do tipo. Um dia de manhã o telefone tocou com “desconhecido” piscando na tela. Meu coração deu um salto duplo carpado até a boca. Quando atendi, de cara a enfermeira disse “fica calma que tá todo mundo bem”. Demorei uns minutos para me recuperar, mas ela só queria saber que horário nós iríamos para o hospital para assinar uma liberação para exame.

A Nathalie pegou os 5 dias de licença “paternidade” e mais 5 dias de férias. Reservaria as outras 3 semanas de férias para quando os meninos viessem para casa. Ter ela ao meu lado tornava a ida ao hospital muito mais fácil. É muito bom ter em quem se apoiar. Não imagino o que seria passar por tudo isso sozinha. Fazíamos canguru com os meninos todos os dias, duas vezes por dia, eles ficavam em média pelo menos umas quatro horas por dia no colo. Era com certeza a melhor parte do dia.

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Ficou combinado que nossos pais ficariam responsáveis pela mudança – um ficaria supervisionando o encaixotamento, e o outro recebendo as caixas na casa nova. Quando você passa por momentos difíceis, aceitar ajuda passa a ser seu único modo de sobrevivência. A nossa sorte desde o começo, é que nossa rede de suporte foi absolutamente incrível.

O primeiro estudo genético da investigação da Fibrose cística no Antonio voltou negativo. Isso era um bom sinal, mas não era conclusivo. Repetiriam mais um exame que levaria mais uns dez dias para voltar. Nem acreditei. No mesmo tempo que o resultado do Antonio voltou, recebemos a notícia que o Dani tinha sido promovido para a unidade semi intensiva. Logo logo poderia por roupa e ir para o berço.

No dia 19 de julho, além de comemorarmos o aniversário de 92 anos da bisa porreta, tivemos outro motivo para comemoração: Tom fez cocô. E logo aprendemos que a maternidade tem essas de comemorar excrementos… Isso era sinal que a recuperação da cirurgia estava quase no final.

Naquela época (dois meses que parecem uma vida) eu não entendia que as coisas estavam indo maravilhosamente bem. Ficava tensa e muito apreensiva com a possibilidade do Tom ter alguma doença. Mas a nossa ida para casa estava muito próxima. Dani foi para o berço usando uma roupa de “astronauta” para manter a temperatura, estava mamando no peito e na mamadeira, Tom começou a se alimentar por sonda e também começou trabalho com a fono. Os dois ganhavam peso. Foi em um desses dias que uma das enfermeiras sugeriu que nós fizéssemos uma traquinagem – pela primeira vez após o nascimento, unimos os irmãos. Foi o único encontro que tiveram até hoje. Essa foto é muito especial para mim.

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image_3O Dani teve uma evolução que surpreendeu a todos. Não tomava nenhuma medicação, conseguiu manter a temperatura do corpo quando foi para o berço, e começou a mamar tudo via oral. Logo me avisaram que dariam o “banho demonstração” e pediram para levarmos o bebê conforto para o hospital. Todos sinais de que a alta estava muito próxima.

Então, 20 dias depois de nascer, Daniel teve alta – no dia que também foi o dia da nossa mudança, porque as coisas nunca são simples nessa história…

5 pensamentos sobre “(meia) alta

  1. Que esses bebê sejam muito bem-vindo a este mundo, e com a certeza de que serão muito amado e acarinhado por todos, não apenas pelos pais. Desfrutem de cada instante, pois este é um momento mágico, mas passa muito rápido. o Antonio e o Daniel já são vencedores. Muitas felicidades para toda a família, que agora foi aumentada por uma pequena e tão grande bênção que certamente trará muita alegria… bjs Bia saudades.

  2. Dificil ler o seu blog. Difícil lembrar de quando a minha Lele nasceu e ficou no NICU. Lendo a sua experiência me da um pouco de post traumatic stress. Serio, essa experiência causa um trauma…é tudo aquilo que voce falou, muito ruim chegar em casa sem o seu filho. Nos aprendemos amar os nossos filhos pelos mil e um sacrifícios e services que fazemos para eles. To vendo que esses boys são muito amados.

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