nossa família existe

casamento

Já que essa pauta está em voga, vou falar sobre a recepção das duas mães dos meninos. No meio desse turbilhão confesso que não tive nem tempo de pensar “o que será que vão achar do fato dos meninos terem duas mães?”. E sabe o que acharam? Nada. De um jeito absolutamente maravilhoso, não acharam nada.

Em todo esse processo, desde a equipe toda da reprodução assistida, banco de esperma, na minha internação no hospital, até a estadia dos meninos na UTI neo e agora na UTI pediátrica: todos os profissionais trataram a questão com uma verdadeira *normalidade*.

Pensando, poderia ter ficado preocupada de não deixarem a Nathalie entrar na UTI, uma vez que são super rígidos sobre quem pode permanecer lá dentro. A maternidade dela não foi questionada nem por um segundo, mesmo antes do processo burocrático de ter o nome dela oficialmente na certidão de nascimento. Os médicos e as enfermeiras trataram ela desde o começo como ela deveria ser tratada: mãe.

Eu sei que é assim que as coisas devem ser, mas acho que por mais que nossa sociedade tem avançado, existe muito pensamento (e atitude) retrógrado por aí.

No dia dos pais, estavam distribuindo presentinhos para os pais da UTI neo – uma enfermeira nos deu uma sacolinha dizendo que nós também éramos pai, então merecíamos presente. Achei engraçado isso – nós somos mãe e pai no sentido que nós suprimos as necessidades dos nossos filhos. Papel de pai é algo que vem sendo amplamente discutido atualmente, acho que uma discussão decorrente de uma ampliação da busca de um papel mais igualitário da mulher na sociedade. Eu acho que nós não buscamos fazer “papel de pai”. A palavra em inglês “parents” resume mais o que queremos ser.

A recepção que temos normalmente é calorosa. Falam que os meninos têm sorte de ter duas mães. E que bom que eles tinham dois colos de mãe, pois não teriam que dividir. Também tem a curiosidade sobre como foi o processo de decisões: quem geraria, como foi a escolha do esperma, composição dos sobrenomes e etc… Tudo nós respondíamos (e ainda respondemos) com o maior prazer. Para que isso se torne algo cada vez mais aceito, precisa ser discutido. As pessoas precisam conhecer isso na vida real para que a aceitação se torne maior. Essa é a minha forma de pensar…

No prontuário dos meninos, na capa tinha um espaço para que fossem anotados telefone e nome da mãe e do Pai. Ao invés de só colocarem nossos nomes lá, um em cada campo, as enfermeiras tiveram o cuidado de passar branquinho no lugar escrito “pai” e substituir por outro campo com “mãe”. Pode parecer uma coisa boba, mas são esses gestos que me emocionam.

Nós tivemos também muita sorte no processo do registro dos meninos. Como tentar não custa nada, tentamos registrar logo de cara em nome das duas. Não rolou. Consultamos uma advogada, contamos nossa história, ela ligou para o cartório onde onde estava o registro dos meninos e disse coisas mágicas. Não sabemos até hoje o que a advogada falou, mas funcionou. E ela não cobrou nada por isso. Ter o nome de nós duas na certidão de nascimento é uma vitória, um orgulho tremendo.

Para não dizer que não tivemos nenhum problema, houve um episódio com uma daquelas voluntárias do Einstein – lembra que comentei sobre as senhoras de jaleco rosa que ficam perambulando? A UTI neo tem dois horários de visita diários para pessoas que não os pais e mães. Cada bebê tem direito a duas visitas –  cada uma tem 10 minutos. As voluntárias estão lá para “organizar” a visita das 16h. O engraçado é que não fazem isso nem na visita das 21h ou nos finais de semana – ou seja, a visita é basicamente algo “auto organizante”. Enfim, antes de uma dessas visitas estava lá a Nathalie, meu pai e minha avó. Vale dizer que as mães e pais podem acompanhar as visitas dentro da UTI neo. A voluntária perguntou quem dos três faria a visita – Nathalie disse que meu pai e minha avó, e que acompanharia. A senhora voluntária então perguntou se Nathalie estava amamentando (uma dessas perguntas que as pessoas se sentem no direito de fazer), ela respondeu que não, que a outra mãe estava amamentando. Foi então que a tia disse “mas só a mãe pode entrar”. Ouch. Nathalie repetiu que era a mãe e não discutiu. Agora vem a parte boa: fiquei sabendo que depois que Nathalie entrou com meu pai para a visita, minha avó de 92 anos deu lição de moral na amiga voluntária. Minha avó, de bengala e cabelos brancos (mas que tem facebook e acessa esse blog, oi vó!) disse que a neta dela foi quem tinha engravidando, mas a Nathalie, que aliás ela também considerava como neta era tão mãe quanto. E se ela com 92 anos não tinha dificuldade para entender isso, não sabia Pq os outros teriam.” Toma essa mundão! Tom e Dani, a bisa é porreta!

11 pensamentos sobre “nossa família existe

  1. É isso ai Dona Ziza… que bela lição a senhora mostrou, ela ouviu o que não queria da próxima vez, isso (se tiver a próxima) ela vai pensar antes de abrir a boca e falar baboseiras, Bia , quero que saibas que eu estou com vc te conheço des de que vc nasceu em que eu cerreguei no colo aquela bebezinha fofinha … ai que saudades !!! bjs Deus abençoe a família.

  2. Obrigada Bia e Nat pelas palavras Podem estar certas na sinceridade da minha opinião. Admiro muito vocês ” Só o amor constrói ” Amo meus lindos e queridos bisnetos, eles chegaram para alegrar a minha velhice.

  3. Nossa, que incrível! Cada artigo (agora vi que se chama artigo e não capítulo/episódio…) é sempre tão interessante e emocionante…neste, parabéns para a vovó…

  4. “As pessoas precisam conhecer isso na vida real para que a aceitação se torne maior. Essa é a minha forma de pensar…” Linda forma de pensar. E vale prá tudo, né Bia.

    Amei a Bisa, beijo nela
    beijo nos babys e nas mães.

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