get lucky

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Nayyirah Waheed

Aguardar o andamento daquela cirurgia foi, até então, a coisa mais difícil por qual eu tinha passado. Quase não conseguia falar, e as lágrimas corriam soltas pelo meu rosto. O médico me deu ferro na veia por conta do meu quase desmaio na UTI neo, e pelo menos isso estava me dando uma sobrevida.

As horas se arrastavam, e de tempos em tempos a Nathalie descia para ver o Daniel. Eu estava presa à cama por causa dos medicamentos. Mais ou menos uma hora e meia depois do início ligamos no centro cirúrgico para saber o andamento das coisas. Recebemos a notícia que ainda estava rolando.

Passei horas olhando para a parede e chorando. Estava morrendo de medo, super ansiosa. Até que o cirurgião, Dr. Mauricio, entrou no quarto. Nos disse basicamente que Tom tinha um “nó nas tripas”, que a cirurgia tinha sido meio complicada, mas que tinha corrido tudo bem. Devido à aparência das coisas, disse que fariam exames para ver se não tinha sido alguma doença que teria causado o “nó”. Agora era uma questão de tempo. Nessa cirurgia, Tom já perdeu parte do intestino.

Descemos para ver os meninos. Dessa vez eu estava um pouco mais controlada, e sabia mais ou menos o que esperar. Tom estava entubado, mas com uma aparência  relativamente boa. Nunca tinha visto alguém entubado antes. O pediatra veio conversar conosco que, pela aparência das coisas vistas durante a cirurgia, estavam suspeitando que Tom tivesse uma doença chamada Fibrose Cística. Disse que  testariam ele, mas o exame demoraria pelo menos uns 10 dias para voltar. Além disso, o exame não seria conclusivo, e teria de ser acompanhado de outros testes. Ouvia ele falando, mas não conseguia esboçar uma reação.

O médico nos aconselhou a não sair procurando na internet coisas sobre a doença, pois ela tinha muitos graus, e poderíamos nos assustar à toa. Pela primeira vez na vida, segui esse conselho. Não pesquisei absolutamente nada. Muito diferente do meu comportamento habitual de tentar descobrir tudo sobre um problema.

Eu voltei para o quarto e chorei muito, mas pelo menos estava aliviada que a cirurgia já tinha passado e agora era questão de esperar ele se recuperar. Estava em jejum, com uma sonda que tinha um saco coletor, para onde a bílis do estômago sairia.

Depois da conversa com o médico, ficamos um tempo com os meninos. A Nathalie me deu as instruções sobre como tocar neles. Higienizar muito bem as mãos, tirar anéis, e abrir a encubadora com o cotovelo para não sujar as mãos já limpas. Encostei nos meus filhos pela primeira vez. Um misto de alegria, preocupação, emoção… Conversava com os meninos, um hábito que mantenho, falando que estava muito orgulhosa deles, da força deles e que eles estavam se saindo muito bem.

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A Nathalie perguntou quando poderíamos pegar eles no colo, e a enfermeira informou que no dia seguinte achava que o Tom já teria condições.

No meio de tudo isso, veio a nutricionista falar comigo para eu marcar um horário no banco de leite para começar a estimular o leite a descer. Tom não estava comendo, só recebendo nutrição parenteral (nutrição que é dada através de um cateter, pela veia). Dan recebia leite por uma sonda, oito vezes ao dia. Marquei a ida ao banco de leite para o próximo dia, conforme orientada.

Menos de 24 horas depois do nascimento dos pequenos tanta coisa já tinha acontecido…

No dia seguinte acordei e fui ao banco de leite. As tias que cuidam do banco me orientaram a colocar um avental, máscara e toca no cabelo. Depois eu deveria lavar as mãos com aquele sabonete mega power que usam antes de cirurgias. Quando estivesse pronta, poderia entrar. Eram várias cabines, com uma bomba de extração, gaze e álcool gel. Não mencionei ainda que passar álcool gel na mão virou tipo respirar para mim. Espero que ao final de tudo isso eu ainda tenha mãos, porque devo passar esse negocio na mão umas cinquenta vezes por dia.

Sentei numa das cabines e uma tia veio me orientar. Liguei a bomba e comecei a estimular. O mais engraçado é que o banco de leite tem uma trilha sonora. Nunca mais poderei ouvir Get Lucky sem vazar leite. Rs… Enquanto eu estava sentada lá, só digerindo tudo que estava acontecendo, Daft Punk tocava ao fundo. A trilha do banco de leite é super esquizo, e sei a ordem das músicas de cor. Get Lucky, uma música da Celine Dion que não sei o nome, Maria Gadú, Love Generation, somewhere over the rainbow (aquela versão de ukelele que toca no final de todas as comédias românticas ever) stand by me (versão playing for change)…etc. É um dos piores mixes que já ouvi, não faz o menor sentido. O mix que sou obrigada ao ouvir de duas a três vezes por dia, de domingo a domingo.

Depois da saga do leite, voltei e tinham visitas no quarto. Eu estava super resistente a receber visitas no quarto, pois estava extremamente sensível e nada afim de ficar falando sobre tudo que tinha acontecido. Fora que tirar a placenta de uma mulher causa vários distúrbios hormonais, causando o que seria a maior TPM da história do universo. Com as visitas vinham as perguntas normais de quando se visita uma recém parida no hospital – “posso ver os bebês?”. Essa pergunta era como uma faca no coração.

No final do dia, fomos ver os meninos uma última vez antes de dormir. Foi então que pela primeira vez pegamos eles no colo. Fizemos o primeiro “canguru”. Estava morrendo de medo. Canguru é uma prática que se faz com bebês prematuros, onde coloca-se o bebê deitado no peito da mãe/pai. O contato pele com pele, e o ouvido dele no coração, ouvindo os batimentos cardíacos ajuda o bebê a relaxar, dormir, respirar e ganhar peso.

Nathalie ficou com Tom e eu com Dani. Não conseguia parar de chorar de felicidade. Sentir a pele do meu filho contra a minha foi a sensação mais incrível que já tive. Senti que relaxei pela primeira vez em muito tempo.
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4 pensamentos sobre “get lucky

  1. Em primeiro lugar Bia, Deus abençoe o Tom e o Dani, e abençoe você Bia e a Nat… me emocionei muito com sua história, em minhas orações incluo sua família maravilhosa, vai dar tudo certo esses meninos vão nos trazer muitas alegrias cada dia é uma vitória, uma conquista…

  2. Aquela trilha é pirada mesmo, antigamente revezava outro cd, mas as tias devem ter perdido e sobrou só esse.. Mas não era muito melhor, tocava aquela música “tô nem ai” da Luka (?) que pelamor tenho vontade de fugir com os peitos de fora mesmo!

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