o dia

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…Nathalie…

A semana que sucedeu aquele 2 de julho foi complicada. Noites no Einstein, dias tentando me concentrar no trabalho, em Alphaville. Muito choro sozinha no carro.
10 de julho era uma ponte de feriado, mas trabalhei normalmente. Saí naquela manhã de sol do hospital e rumei à Alphaville.

Lá pelas 16h30 a Bia me ligou; eu sabia que ela estava em exame. Ela, tentando controlar o nervosismo, me falou que a médica tinha dito que eles nasceriam entre 1 e 3 dias depois. Comecei a empacotar as coisas para sair.

Pouco depois ela ligou de novo: eles nasceriam naquele dia. Nem sei o que fiz, com quem falei, como cheguei ao carro. Lembro do trânsito para sair de Alphaville, o sol batendo, os minutos passando. O telefone tocou novamente: já tínhamos o horário do parto. Ufa! Eu tinha tempo de sobra. Mas tempo de sobra no trânsito….
E liguei para meu melhor amigo. Contei o que já sabíamos do Antonio e quase o matei de susto com a novidade – na verdade pegamos todos de surpresa com a prematuridade do parto.

Cheguei ao hospital, zonza e agitada. Pouco mais de uma hora depois desci alguns andares, coloquei minha roupinha de fake médica e fui para o centro cirúrgico. Impressionante como é difícil achar a sala correta naqueles corredores todos.

IMG_8842A Bia chegou alguns minutos depois e ficamos aguardando os médicos. Pareceu uma eternidade esperar pelo obstetra e pelos pediatras da uti neo natal que acompanhariam o parto.

Sinal verde dado, fui expulsa da sala para que a Bia tomasse anestesia. Mais horas e horas de espera (7 minutos) e entrei na sala. Encontrei-a alerta e entre a euforia e a histeria. Sentei-me ao lado dela, segurei sua mão e a cesária começou – infelizmente a Bia não pode realizar o sonho de ter parto normal, pelas circunstâncias todas.

Nunca imaginei que demorasse tanto para abrir alguém. O médico parecia cortar milímetros de cada vez e nada acontecia – e eu ficando cada vez mais ansiosa… Quase ajudei o moço a abrir, mas não foi necessário.

Exatamente 15 minutos depois, o Daniel chegou mostrando a bunda para o mundo. Uma eternidade se passou até que ele chorasse e, com o choro dele, veio o meu, e o da Bia. 2 minutos pude ver um pé minúsculo chutando a porta do mundo: era o Antonio.

A partir daí só sei de choro, de ficar dividida entre a sala onde estava a Bia e a sala onde preparavam os meninos para ir para a uti, de não saber mais de nada do mundo, além daquele instante.

…Bia…

Enquanto eu era levada para o centro cirúrgico na maca, um mar de coisas passava pela minha cabeça. Lembro de ficar esfregando a minha barriga e falar para os meninos que já já íamos nos encontrar, para eles serem corajosos e fortes. Eu estava tentando ser corajosa e forte – no fundo estava apavorada.

É engraçado que quando você está grávida as pessoas todas te olham com ternura. E todos com quem cruzava me olhavam como se estivessem me desejando boa sorte.

Encontrei a Nathalie fantasiada de médica, e entramos na sala. Sobre a anestesia, só digo uma coisa: se eu não estivesse parindo eu com certeza estaria em pânico absoluto porque NÃO SENTIA MINHAS PERNAS. Gente, isso é muito desesperador. Ainda bem que outras coisas estavam me ocupando naquele momento.

Não sei se eu apertava mais a mão da Nathalie ou ela a minha. Enquanto o médico ia me abrindo eles estavam conversando sobre que cirurgião seria chamado para operar o Tom. Depois o médico perguntou se nós queríamos armazenar os cordões umbilicais (sim!). Eu tentava lembrar de respirar e eventualmente falava pra Ná pegar leve na minha mão porque não queria dedos quebrados.

Então veio aquele som indescritível. Um choro poderoso, alto. Parece que virou uma chave em mim e eu comecei a chorar. Chorar de soluçar. Chorar tipo ugly cry  – Tipo a Claire Danes em qualquer papel em que ela chore (todos). Daniel tinha saído.

Enquanto aguardava uma eternidade (dois minutos) pela saída do Antonio, senti uma pressão na minha coxa, como alguém se apoiando. Pensei comigo que era super sem noção o assistente do cirurgião estar se apoiando em mim durante o parto. Fui saber depois pela Nathalie que na verdade o médico tinha colocado o Dani na minha perna, ainda conectado pelo cordão umbilical enquanto o Tom não saia. Dessa forma ele ficaria o maior tempo possível conectado a mim.

O segundo choro veio mais agudo, porém não menos poderoso. Antonio chegou ao mundo pequeno e bravo. Os dois ficaram juntos nas minhas pernas durante alguns minutos até que as enfermeiras os trouxerem para eu dar beijinhos rápidos em suas cabeças antes de serem levados para os procedimentos na outra sala.

Nós éramos mães.

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Um pensamento sobre “o dia

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