nossa família existe

casamento

Já que essa pauta está em voga, vou falar sobre a recepção das duas mães dos meninos. No meio desse turbilhão confesso que não tive nem tempo de pensar “o que será que vão achar do fato dos meninos terem duas mães?”. E sabe o que acharam? Nada. De um jeito absolutamente maravilhoso, não acharam nada.

Em todo esse processo, desde a equipe toda da reprodução assistida, banco de esperma, na minha internação no hospital, até a estadia dos meninos na UTI neo e agora na UTI pediátrica: todos os profissionais trataram a questão com uma verdadeira *normalidade*.

Pensando, poderia ter ficado preocupada de não deixarem a Nathalie entrar na UTI, uma vez que são super rígidos sobre quem pode permanecer lá dentro. A maternidade dela não foi questionada nem por um segundo, mesmo antes do processo burocrático de ter o nome dela oficialmente na certidão de nascimento. Os médicos e as enfermeiras trataram ela desde o começo como ela deveria ser tratada: mãe.

Eu sei que é assim que as coisas devem ser, mas acho que por mais que nossa sociedade tem avançado, existe muito pensamento (e atitude) retrógrado por aí.

No dia dos pais, estavam distribuindo presentinhos para os pais da UTI neo – uma enfermeira nos deu uma sacolinha dizendo que nós também éramos pai, então merecíamos presente. Achei engraçado isso – nós somos mãe e pai no sentido que nós suprimos as necessidades dos nossos filhos. Papel de pai é algo que vem sendo amplamente discutido atualmente, acho que uma discussão decorrente de uma ampliação da busca de um papel mais igualitário da mulher na sociedade. Eu acho que nós não buscamos fazer “papel de pai”. A palavra em inglês “parents” resume mais o que queremos ser.

A recepção que temos normalmente é calorosa. Falam que os meninos têm sorte de ter duas mães. E que bom que eles tinham dois colos de mãe, pois não teriam que dividir. Também tem a curiosidade sobre como foi o processo de decisões: quem geraria, como foi a escolha do esperma, composição dos sobrenomes e etc… Tudo nós respondíamos (e ainda respondemos) com o maior prazer. Para que isso se torne algo cada vez mais aceito, precisa ser discutido. As pessoas precisam conhecer isso na vida real para que a aceitação se torne maior. Essa é a minha forma de pensar…

No prontuário dos meninos, na capa tinha um espaço para que fossem anotados telefone e nome da mãe e do Pai. Ao invés de só colocarem nossos nomes lá, um em cada campo, as enfermeiras tiveram o cuidado de passar branquinho no lugar escrito “pai” e substituir por outro campo com “mãe”. Pode parecer uma coisa boba, mas são esses gestos que me emocionam.

Nós tivemos também muita sorte no processo do registro dos meninos. Como tentar não custa nada, tentamos registrar logo de cara em nome das duas. Não rolou. Consultamos uma advogada, contamos nossa história, ela ligou para o cartório onde onde estava o registro dos meninos e disse coisas mágicas. Não sabemos até hoje o que a advogada falou, mas funcionou. E ela não cobrou nada por isso. Ter o nome de nós duas na certidão de nascimento é uma vitória, um orgulho tremendo.

Para não dizer que não tivemos nenhum problema, houve um episódio com uma daquelas voluntárias do Einstein – lembra que comentei sobre as senhoras de jaleco rosa que ficam perambulando? A UTI neo tem dois horários de visita diários para pessoas que não os pais e mães. Cada bebê tem direito a duas visitas –  cada uma tem 10 minutos. As voluntárias estão lá para “organizar” a visita das 16h. O engraçado é que não fazem isso nem na visita das 21h ou nos finais de semana – ou seja, a visita é basicamente algo “auto organizante”. Enfim, antes de uma dessas visitas estava lá a Nathalie, meu pai e minha avó. Vale dizer que as mães e pais podem acompanhar as visitas dentro da UTI neo. A voluntária perguntou quem dos três faria a visita – Nathalie disse que meu pai e minha avó, e que acompanharia. A senhora voluntária então perguntou se Nathalie estava amamentando (uma dessas perguntas que as pessoas se sentem no direito de fazer), ela respondeu que não, que a outra mãe estava amamentando. Foi então que a tia disse “mas só a mãe pode entrar”. Ouch. Nathalie repetiu que era a mãe e não discutiu. Agora vem a parte boa: fiquei sabendo que depois que Nathalie entrou com meu pai para a visita, minha avó de 92 anos deu lição de moral na amiga voluntária. Minha avó, de bengala e cabelos brancos (mas que tem facebook e acessa esse blog, oi vó!) disse que a neta dela foi quem tinha engravidando, mas a Nathalie, que aliás ela também considerava como neta era tão mãe quanto. E se ela com 92 anos não tinha dificuldade para entender isso, não sabia Pq os outros teriam.” Toma essa mundão! Tom e Dani, a bisa é porreta!

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Nayyirah Waheed

Aguardar o andamento daquela cirurgia foi, até então, a coisa mais difícil por qual eu tinha passado. Quase não conseguia falar, e as lágrimas corriam soltas pelo meu rosto. O médico me deu ferro na veia por conta do meu quase desmaio na UTI neo, e pelo menos isso estava me dando uma sobrevida.

As horas se arrastavam, e de tempos em tempos a Nathalie descia para ver o Daniel. Eu estava presa à cama por causa dos medicamentos. Mais ou menos uma hora e meia depois do início ligamos no centro cirúrgico para saber o andamento das coisas. Recebemos a notícia que ainda estava rolando.

Passei horas olhando para a parede e chorando. Estava morrendo de medo, super ansiosa. Até que o cirurgião, Dr. Mauricio, entrou no quarto. Nos disse basicamente que Tom tinha um “nó nas tripas”, que a cirurgia tinha sido meio complicada, mas que tinha corrido tudo bem. Devido à aparência das coisas, disse que fariam exames para ver se não tinha sido alguma doença que teria causado o “nó”. Agora era uma questão de tempo. Nessa cirurgia, Tom já perdeu parte do intestino.

Descemos para ver os meninos. Dessa vez eu estava um pouco mais controlada, e sabia mais ou menos o que esperar. Tom estava entubado, mas com uma aparência  relativamente boa. Nunca tinha visto alguém entubado antes. O pediatra veio conversar conosco que, pela aparência das coisas vistas durante a cirurgia, estavam suspeitando que Tom tivesse uma doença chamada Fibrose Cística. Disse que  testariam ele, mas o exame demoraria pelo menos uns 10 dias para voltar. Além disso, o exame não seria conclusivo, e teria de ser acompanhado de outros testes. Ouvia ele falando, mas não conseguia esboçar uma reação.

O médico nos aconselhou a não sair procurando na internet coisas sobre a doença, pois ela tinha muitos graus, e poderíamos nos assustar à toa. Pela primeira vez na vida, segui esse conselho. Não pesquisei absolutamente nada. Muito diferente do meu comportamento habitual de tentar descobrir tudo sobre um problema.

Eu voltei para o quarto e chorei muito, mas pelo menos estava aliviada que a cirurgia já tinha passado e agora era questão de esperar ele se recuperar. Estava em jejum, com uma sonda que tinha um saco coletor, para onde a bílis do estômago sairia.

Depois da conversa com o médico, ficamos um tempo com os meninos. A Nathalie me deu as instruções sobre como tocar neles. Higienizar muito bem as mãos, tirar anéis, e abrir a encubadora com o cotovelo para não sujar as mãos já limpas. Encostei nos meus filhos pela primeira vez. Um misto de alegria, preocupação, emoção… Conversava com os meninos, um hábito que mantenho, falando que estava muito orgulhosa deles, da força deles e que eles estavam se saindo muito bem.

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A Nathalie perguntou quando poderíamos pegar eles no colo, e a enfermeira informou que no dia seguinte achava que o Tom já teria condições.

No meio de tudo isso, veio a nutricionista falar comigo para eu marcar um horário no banco de leite para começar a estimular o leite a descer. Tom não estava comendo, só recebendo nutrição parenteral (nutrição que é dada através de um cateter, pela veia). Dan recebia leite por uma sonda, oito vezes ao dia. Marquei a ida ao banco de leite para o próximo dia, conforme orientada.

Menos de 24 horas depois do nascimento dos pequenos tanta coisa já tinha acontecido…

No dia seguinte acordei e fui ao banco de leite. As tias que cuidam do banco me orientaram a colocar um avental, máscara e toca no cabelo. Depois eu deveria lavar as mãos com aquele sabonete mega power que usam antes de cirurgias. Quando estivesse pronta, poderia entrar. Eram várias cabines, com uma bomba de extração, gaze e álcool gel. Não mencionei ainda que passar álcool gel na mão virou tipo respirar para mim. Espero que ao final de tudo isso eu ainda tenha mãos, porque devo passar esse negocio na mão umas cinquenta vezes por dia.

Sentei numa das cabines e uma tia veio me orientar. Liguei a bomba e comecei a estimular. O mais engraçado é que o banco de leite tem uma trilha sonora. Nunca mais poderei ouvir Get Lucky sem vazar leite. Rs… Enquanto eu estava sentada lá, só digerindo tudo que estava acontecendo, Daft Punk tocava ao fundo. A trilha do banco de leite é super esquizo, e sei a ordem das músicas de cor. Get Lucky, uma música da Celine Dion que não sei o nome, Maria Gadú, Love Generation, somewhere over the rainbow (aquela versão de ukelele que toca no final de todas as comédias românticas ever) stand by me (versão playing for change)…etc. É um dos piores mixes que já ouvi, não faz o menor sentido. O mix que sou obrigada ao ouvir de duas a três vezes por dia, de domingo a domingo.

Depois da saga do leite, voltei e tinham visitas no quarto. Eu estava super resistente a receber visitas no quarto, pois estava extremamente sensível e nada afim de ficar falando sobre tudo que tinha acontecido. Fora que tirar a placenta de uma mulher causa vários distúrbios hormonais, causando o que seria a maior TPM da história do universo. Com as visitas vinham as perguntas normais de quando se visita uma recém parida no hospital – “posso ver os bebês?”. Essa pergunta era como uma faca no coração.

No final do dia, fomos ver os meninos uma última vez antes de dormir. Foi então que pela primeira vez pegamos eles no colo. Fizemos o primeiro “canguru”. Estava morrendo de medo. Canguru é uma prática que se faz com bebês prematuros, onde coloca-se o bebê deitado no peito da mãe/pai. O contato pele com pele, e o ouvido dele no coração, ouvindo os batimentos cardíacos ajuda o bebê a relaxar, dormir, respirar e ganhar peso.

Nathalie ficou com Tom e eu com Dani. Não conseguia parar de chorar de felicidade. Sentir a pele do meu filho contra a minha foi a sensação mais incrível que já tive. Senti que relaxei pela primeira vez em muito tempo.
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Quando voltei para o quarto depois dos meninos nascerem, nossas famílias estavam lá. Como não pude providenciar, minha irmã desenhou o enfeite de porta durante o parto – Tom e Dani acompanhados dos nosso gatos Theo e Mika. Não lembro de muita coisa, só sei que eles não ficaram muito tempo, queriam deixar a gente descansar. Eu falei para a Nathalie descer e ir ver os meninos na UTI. Só queria saber deles.

Quando vi, estava sozinha no quarto, ainda sem sentir minhas pernas, meio dopada, e super emotiva. Não tinha conseguido ver o rostinho dos meus filhos. A Ná começou a me mandar fotos deles, e eu respirei mais aliviada. Eles realmente existiam.

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De repente, entra uma mulher no quarto, falando que nem uma metralhadora. “Oi! Boa noite! Ué, você tá sozinha? Como assim? Cadê todo mundo? Cadê os bebês? Falando nisso, parabéns hein! Gêmeos! Bla bla bla bla bla bla bla…” Eu juro quase mandei ela calar a boca. Não estava entendendo quem era essa mulher. Ela começou a me perguntar “o RN1 é qual? Que horas ele nasceu? Qual o peso?” – gente, eu mal sabia o meu nome e essa tia eufórica estava me sabatinando?

A mulher aí de cima foi quem veio coletar os cordões umbilicais que seriam armazenados no banco. Maravilha. Mas quem manda uma tia dessas pro quarto de uma recém parida? A Nathalie voltou pro quarto e me salvou. Pedi pra tia se não podíamos ter essa conversa em um outro momento.

Não dormi essa noite, mas toda vez que cochilava eu sonhava com os meninos. Na verdade, a imagem das fotos que a Nathalie me mandou estava estampadas na minha cabeça.

Quando amanheceu eu quis logo saber quando poderia ver os bebês. Estava morrendo de dor por causa da cesárea, e me sentindo super estranha. Me colocaram na cadeira de rodas e descemos para o sétimo andar – UTI neonatal.

Fui levada até o fundo, onde estavam as encubadoras dos meninos. Comecei a chorar antes mesmo de vê-los. Fomos informadas que a cirurgia no intestino do Tom seria naquela manhã, às 11 horas. Tivemos que assinar termos e autorizações. Meu bebê de menos de 24 horas de vida tomaria anestesia. Passariam também um catéter.

Quando eu finalmente vi meus filhos, fiquei tão desnorteada que quase desmaiei. Quase mesmo. Precisei sentar e respirar muito para não apagar. Que vergonha, a pessoa apagar no meio da UTI. Também chegamos bem na hora que estavam coletando exames do Tom – ver seus filhos sofrendo, sendo picado por agulhas e afins já não é fácil. Seu primeiro grande encontro com ele ser assim é mais difícil ainda. Mas como tem sido desde então, acho que é sempre mais difícil para mim do que para ele. O cara é um touro. Carinhosamente apelidado pela minha família de “Antouro”.

Como ele era pequeno!  1,215kg de pura gostosura. Moreninho. Foi paixão à primeira vista.

Dani estava com um aparato chamado CPAP que ajuda na respiração, não conseguia ver o rostinho dele direito. Os dois tiveram que usar ao nascer, algo bastante comum em prematuros. O Tom, por ter um problema intra-útero já estava mais “preparado” para nascer. O Dani estava lá de boa e teve que ir na onda do irmão. Por mais que tenha nascido maior (grandes 1,720kg), demorou um pouco mais para entrar na onda de respirar ar ambiente. Ele era vermelho e parecia ser loiro! Meu coração explodia de tanto amor. Que vontade de dar um cheiro nesses bebês.

Fui embora da UTI com o coração na mão. Não conseguia parar de chorar. Voltei pro quarto e ficamos aguardando a cirurgia do Tom.

o dia

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…Nathalie…

A semana que sucedeu aquele 2 de julho foi complicada. Noites no Einstein, dias tentando me concentrar no trabalho, em Alphaville. Muito choro sozinha no carro.
10 de julho era uma ponte de feriado, mas trabalhei normalmente. Saí naquela manhã de sol do hospital e rumei à Alphaville.

Lá pelas 16h30 a Bia me ligou; eu sabia que ela estava em exame. Ela, tentando controlar o nervosismo, me falou que a médica tinha dito que eles nasceriam entre 1 e 3 dias depois. Comecei a empacotar as coisas para sair.

Pouco depois ela ligou de novo: eles nasceriam naquele dia. Nem sei o que fiz, com quem falei, como cheguei ao carro. Lembro do trânsito para sair de Alphaville, o sol batendo, os minutos passando. O telefone tocou novamente: já tínhamos o horário do parto. Ufa! Eu tinha tempo de sobra. Mas tempo de sobra no trânsito….
E liguei para meu melhor amigo. Contei o que já sabíamos do Antonio e quase o matei de susto com a novidade – na verdade pegamos todos de surpresa com a prematuridade do parto.

Cheguei ao hospital, zonza e agitada. Pouco mais de uma hora depois desci alguns andares, coloquei minha roupinha de fake médica e fui para o centro cirúrgico. Impressionante como é difícil achar a sala correta naqueles corredores todos.

IMG_8842A Bia chegou alguns minutos depois e ficamos aguardando os médicos. Pareceu uma eternidade esperar pelo obstetra e pelos pediatras da uti neo natal que acompanhariam o parto.

Sinal verde dado, fui expulsa da sala para que a Bia tomasse anestesia. Mais horas e horas de espera (7 minutos) e entrei na sala. Encontrei-a alerta e entre a euforia e a histeria. Sentei-me ao lado dela, segurei sua mão e a cesária começou – infelizmente a Bia não pode realizar o sonho de ter parto normal, pelas circunstâncias todas.

Nunca imaginei que demorasse tanto para abrir alguém. O médico parecia cortar milímetros de cada vez e nada acontecia – e eu ficando cada vez mais ansiosa… Quase ajudei o moço a abrir, mas não foi necessário.

Exatamente 15 minutos depois, o Daniel chegou mostrando a bunda para o mundo. Uma eternidade se passou até que ele chorasse e, com o choro dele, veio o meu, e o da Bia. 2 minutos pude ver um pé minúsculo chutando a porta do mundo: era o Antonio.

A partir daí só sei de choro, de ficar dividida entre a sala onde estava a Bia e a sala onde preparavam os meninos para ir para a uti, de não saber mais de nada do mundo, além daquele instante.

…Bia…

Enquanto eu era levada para o centro cirúrgico na maca, um mar de coisas passava pela minha cabeça. Lembro de ficar esfregando a minha barriga e falar para os meninos que já já íamos nos encontrar, para eles serem corajosos e fortes. Eu estava tentando ser corajosa e forte – no fundo estava apavorada.

É engraçado que quando você está grávida as pessoas todas te olham com ternura. E todos com quem cruzava me olhavam como se estivessem me desejando boa sorte.

Encontrei a Nathalie fantasiada de médica, e entramos na sala. Sobre a anestesia, só digo uma coisa: se eu não estivesse parindo eu com certeza estaria em pânico absoluto porque NÃO SENTIA MINHAS PERNAS. Gente, isso é muito desesperador. Ainda bem que outras coisas estavam me ocupando naquele momento.

Não sei se eu apertava mais a mão da Nathalie ou ela a minha. Enquanto o médico ia me abrindo eles estavam conversando sobre que cirurgião seria chamado para operar o Tom. Depois o médico perguntou se nós queríamos armazenar os cordões umbilicais (sim!). Eu tentava lembrar de respirar e eventualmente falava pra Ná pegar leve na minha mão porque não queria dedos quebrados.

Então veio aquele som indescritível. Um choro poderoso, alto. Parece que virou uma chave em mim e eu comecei a chorar. Chorar de soluçar. Chorar tipo ugly cry  – Tipo a Claire Danes em qualquer papel em que ela chore (todos). Daniel tinha saído.

Enquanto aguardava uma eternidade (dois minutos) pela saída do Antonio, senti uma pressão na minha coxa, como alguém se apoiando. Pensei comigo que era super sem noção o assistente do cirurgião estar se apoiando em mim durante o parto. Fui saber depois pela Nathalie que na verdade o médico tinha colocado o Dani na minha perna, ainda conectado pelo cordão umbilical enquanto o Tom não saia. Dessa forma ele ficaria o maior tempo possível conectado a mim.

O segundo choro veio mais agudo, porém não menos poderoso. Antonio chegou ao mundo pequeno e bravo. Os dois ficaram juntos nas minhas pernas durante alguns minutos até que as enfermeiras os trouxerem para eu dar beijinhos rápidos em suas cabeças antes de serem levados para os procedimentos na outra sala.

Nós éramos mães.

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Sei que disse que não iria me alongar falando da gravidez, mas a semana que antecedeu o grande dia merece um relato. Na quinta, 2 de julho, tive uma consulta médica (vale dizer que meu obstetra, que foi também quem fez todo o processo de inseminação, é um médico brilhante, porém não muito carinhoso ou que faz nhê nhê nhê. Eu particularmente prefiro assim). Minha pressão estava subindo já há um tempo, tinha sido afastada do trabalho e sabíamos da complicação com Tom. Confesso que o médico, nesta consulta, me deixou meio assustada – disse que havia riscos para os dois bebês. Me acabei de chorar. O chá de fraldas aconteceria dois dias depois.

Juro que cogitei cancelar, mas fui convencida a não, ainda bem. O chá de fraldas (meu pai não entendeu muito bem um chá de fraldas onde cerveja e vinho rolavam soltos. Acho que na cabeça dele no chá de fraldas as pessoas tomavam chá, e só mulheres eram convidadas) foi uma delicia, principalmente porque consegui ver as pessoas uma última vez antes da chegada dos meninos. Mal sabia que em menos de uma semana eles dariam o ar da graça.

Na segunda feira tive uma nova consulta no médico. Desta vez ele foi um pouco mais empático, disse que eu não tinha que ficar chorando, que os bebês ficariam bem. Mesmo assim, minha pressão neste dia subiu nas alturas. Estava tipo 17 por 11. Fiquei deitada na clínica por umas 3 horas e nada da pressão baixar. O perigo da pressão alta na gravidez é tanto para mãe quanto para o(s) bebê(s). Fiz um novo ultrassom neste dia, e o Tom já começava a mostrar sinais que não estava recebendo nutrição adequada. Saí da clínica direto para ser internada no lugar para o qual tenho ido diariamente desde então – o Einstein.

Durante os 5 dias que fiquei internada antes do parto, basicamente lia (o livro da ex namorada do Hugh Hefner, algo super intelectual), comia, e fazia xixi. Daniel estava convenientemente sentado na minha bexiga, o que fazia com que visitasse o banheiro de 5 em 5 minutos. Demorava 10 minutos para conseguir levantar da cama, então essa atividade realmente ocupava meu tempo. Não podia comer nada de sal por causa da pressão, então a comida era, ó, uma delícia. Risos.

Num desses dias, um amigo meu foi me visitar e ficamos papeando. O Einstein tem um programa de “voluntariado”, onde senhoras de jaleco rosa ficam perambulando pelo hospital fazendo coisas que ainda não entendi o que são. Neste dia, uma destas voluntárias entrou no meu quarto e começou a fazer small talk comigo. “Pq vc foi internada” “qual o sexo do bebê?” “Nossa! São dois bebês?” “Você tem gêmeos na família?” Etc etc etc… Ela logo começou a se dirigir ao meu amigo como se ele fosse o pai. “deve estar ansioso, né papai?”. Pois é gente, se tem uma mulher grávida acompanhada de um cara, ele automaticamente é o pai. Meu amigo (gay, no caso) ficou super orgulhoso de terem achado que ele tinha potencial para pai. Tudo isso enquanto ele consultava o Grindr para ver se tinham médicos gatos disponíveis no hospital.

Minha família se revezava para ficar comigo durante o dia enquanto a Ná dormia todas as noites lá. Enquanto estava lá recebi injeções de corticoide que ajudariam no desenvolvimento dos pulmões dos meninos. Fazia exames para ouvir os batimentos cardíacos dos bebês, media a pressão de 4 em 4 horas e me preocupava constantemente com os pequenos.

Na sexta feira, dia 10 de julho, fui fazer mais um ultrassom. A minha irmã Simone me acompanhou neste – foi detectado que o Tom praticamente não estava recebendo mais nutrição, e por mais que a médica que fez o exame parecesse descontraída, eu sabia que os meninos viriam logo logo.

Não deu outra – nesse mesmo dia, umas cinco da tarde, me ligou meu obstetra dizendo: vai ser hoje. Fiquei congelada com um misto de pânico, medo e ansiedade. 32 semanas de gestação: sabia que bebês nasciam e ficavam relativamente bem com esse tempo de gestação. Mas, além disso, ainda tinha o problema do Tom para considerar.

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começo

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Eu não lembro exatamente como eu e a Nathalie decidimos que era a hora de começar a realizar o sonho de ter filhos. Já tinhamos conversado bastante a respeito, era algo que as duas queriam. Mas quando tento lembrar da conversa onde decidimos “é agora”, a memória falha. O que lembro é que recebi a indicação da clínica onde faríamos o tratamento no começo de agosto de 2014.

Liguei e marquei a primeira consulta não muito depois disso. Em setembro já tinhamos o caminho das pedras para iniciar todo o processo. Inseminação artificial com esperma de doador. Na visita ao banco de sêmen percebemos como a cultura de doação no Brasil é fraca… muito provavelmente por que é ilegal no país a doação remunerada (que oximoro, não?) – a venda de esperma não é ilegal, tanto que o banco de sêmen comercializa o “produto”. A única motivação que um cara tem para doar, além da ~boa ação~, é poder fazer vários exames como parte do pacote. Digamos que a gama de opções não é nada extensa. Se resume a duas folhas, com uma planilha de excel com quase nada de informações sobre o doador. Cor dos olhos, cor do cabelo, peso, altura, tipo sanguíneo, religião, formação e profissão. No próprio banco nos foi dada a opção de utilizar o esperma de um banco americano parceiro. Nos Estados Unidos a doação de esperma é remunerada, portanto há infinitas opções e muito mais informações sobre os doadores. É um verdadeiro catalogo. Além das informações que teríamos no caso dos brasileiros, encontraríamos também testes de personalidade, histórico de doenças na família, uma redação com a motivação para se tornar doador (além da financeira), uma gravação com a voz do cara, lista de hobbies e interesses e uma foto sua quando criança. Ter todas essas informações te da uma falsa sensação de “controle” sobre essa escolha. Nós optamos por usar o sêmen do banco americano. Muita gente nos pergunta como foi o processo de escolha – basicamente pensamos “nós seríamos amiga dessa pessoa?”. Outro ponto importante era ser parecido com a Nathalie, já que definimos que usaríamos o meu óvulo e minha barriga.

Depois de eu fazer vários exames para confirmar a minha fertilidade (seria um desperdício de tempo e dinheiro começar um processo de reprodução assistida e depois descobrir que eu teria algo que me impedisse engravidar), iniciamos a jornada. Faríamos três tentativas de inseminação artificial e, se não tivéssemos sucesso, partiríamos para a fertilização in vitro. Para aumentar a chance de cada tentativa, eu tomaria hormônios para estimular a ovulação. Injeções de Gonal diárias (aprender a aplicar injeções em mim mesma foi um capitulo à parte), inúmeras idas à clínica para acompanhar o crescimento mensal dos óvulos até que o médico dissesse “amanhã é o dia”. Quando ele dava o go ahead, a gente buscava o esperma no banco, com uma garrafa térmica comprada no pão de açucar. Devia ser uma cena engraçada para os manobristas, verem uma pessoa carregando uma garrafa térmica meio aberta, com fumaça de gelo seco saindo, com o maior cuidado do mundo. Em cada tentativa, as expectativas eram enormes. Teoricamente, 14 dias depois da inseminação (que nada mais é do que injetar o esperma no canal vaginal e torcer para que tenha um óvulo lá pronto e esperando para ser fecundado) é possível fazer um teste de farmácia para ver se rolou ou não. 14 dias de eternidade. 14 dias lendo absolutamente todos os sinais do corpo, tentando notar uma diferença que te diga “agora foi”. Eu entrava nos fóruns da internet de pessoas fazendo o mesmo processo (mulheres tentando engravidar ficam meio malucas), me familiarizei com todos os termos, e entrei na piração junto. Nunca postava nada, mas acompanhava a jornada de várias.

Nas primeiras duas tentativas fiquei menstruada antes mesmo do prazo de 14 dias. Que decepção. Na terceira tentativa mudamos de doador. Seria a última tentativa antes de partirmos para o processo mais custoso e trabalhoso de fertilização in vitro. Já estava expert em testes de gravidez de farmácia – logicamente eu não esperava os 14 dias para começar a testar. Oito dias depois da inseminação começava a testar, e logicamente os resultados vinham negativos. Chorei, e disse que  não tinha sido daquela vez, e que teríamos mais um mês pela frente. A Nathalie tentava argumentar comigo que estava sendo louca, que o teste de gravidez não era mágico para conseguir detectar as coisas tão cedo. Ela dizia que eu estava viciada em fazer xixi no palito (no caso, ela estava certa) Eu não dava ouvidos. No dia 24 de dezembro, 12 dias depois da última inseminação, acordei e pensei “vou testar mais uma vez”. E não deu outra. Naquele palito glorioso, a confirmação. Não vou me alongar muito sobre o que aconteceu depois, a não ser que fui à farmácia e comprei mais uns 10 testes, de todas marcas, para ter ~certeza~ do resultado.

Depois disso foram idas ao médico, exame de sangue, o primeiro ultrassom que mostrava uma bolinha que confirmava a fecundação. Estava eufórica. Na segunda ida ao médico, fazendo o ultrassom fiquei mega emocionada ao ouvir os batimentos cardíacos daquele feijãozinho. O médico apontou para a tela e nos perguntou “vocês tão vendo?” – eu não tava vendo nada. A Nathalie foi rápida ao dizer “são dois”. DOIS. Antonio e Daniel estavam a caminho.

Não vou escrever muito sobre a gravidez porque essa não é a intenção desse espaço, acho que nem é muito o que interessa. Só digo que absolutamente amei estar grávida. Tivemos sustos ao longo do caminho, mas nada tirava aquela sensação incrível. Lá pela vigésima sexta semana de gestação (é um porre esse negócio de contar gravidez pelas semanas, mas como os médico fazem assim, você meio que entra na onda), fazendo um ultrassom de rotina, o médico percebeu que a barriguinha do Tom estava um pouco dilatada. Foi aí que vimos que ele estava com uma obstrução no intestino, e que só saberíamos ao certo o que era quando ele nascesse. Pânico.

E foi assim que, no dia 10 de Julho de 2015, 7 meses depois (32 semanas), Tom e Dani fizeram sua estreia no mundo. Uma sexta feira, ponte de feriado (médico tendo que voltar da praia para fazer o parto e etc.), um dia de inverno lindo e ensolarado. Sendo super piegas – o dia mais emocionante da minha vida.

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